Um Natal Anglo-Brasileiro

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A importância das TRADIÇÕES na vida entre culturas

O Natal se aproxima e estamos numa correria com todos os eventos pré-natal e as preparações para a chegada da família. E neste ano filhos e netos vem passar o dia de Natal conosco aqui em nossa casa na Inglaterra. Finalmente, uma casa que podems chamar de nossa – como a nossa filha comentou:”a gente não teve casa nossa deste 1991″! Sempre era “a casa onde estávamos morando naquele período”. Mas agora é a nossa casa! E a família reunida; as filhas com maridos e filhos, todos juntos – algo que não acontecia há 7 anos. 

Ser uma família transcultural não é fácil. É uma aventura, mas uma aventura com muitos desafios, muitas montanhas para subir, muitos vales escuros para atravessar, muitos momentos de alegria com as pequenas vitórias, mas também momentos de tristeza, frustração, raiva, desespero, e até de querer desistir. E quando chega um momento como o Natal é especialmente difícil. Estar longe de parentes, amigos, país e das coisas que fazem um momento como Natal especial. Exige de nós, mulheres, mães (e pais) um montão de preparação, planejamento e trabalho! Mas vale a pena. 

Na realidade da família que vive entre culturas, enquanto os filhos são menores estaremos juntos, mas geralmente, logo que os filhos terminam o segundo grau, eles voam! E logo logo é um filho em cada continente! Por isso este Natal de 2022 será muito especial, pois eles pediram para vir estar conosco em casa. Isso traz uma alegria enorme aos nossos corações. Mas eu creio que isso não acontace “por acaso”! Isso é, em parte, porque os momentos de celebração e tradições sempre foram valorizados e preservados em nossa família. 

Eu lembro do nosso primeiro Natal no Brasil após somente 3 meses no país. Uma família da igreja nos convidou para ir na casa deles no dia 25 para almoçar. Era uma experiência única de aprendizagem cultural! Na Inglaterra, as crianças dormem cedo no dia 24 para que Papai Noel venha e deixe presentes. Elas costumam levantar cedo no dia 25 em busca dos presentes! Ainda pela manhã, os cristãos vão para a igreja celebrar o nascimento do menino Jesus. Depois, voltando para casa temos um almoço em família, com peru assado e todos os legumes (quentes) e “gravy and stuffing” (nem dá para traduzir!). Imagine a nossa confusão quando na noite do dia 24 ouvimos barulho até tarde da noite, com fogos artificias e gritos de “Feliz Natal” à meia noite, ali no bairro onde morávamos. Nossos filhos estavam já dormindo, e nós não compreendíamos o que estava acontecendo. Ao amanhecer nos vestimos todos de roupas formais prontos para festejar o Natal na casa da família da igreja. Graças a Deus, ao chegar para nos buscar a filha da família percebeu e nos avisou que normalmente o dia 25 é um dia mais relax e talvez a gente preferisse colocar shorts e camisetas. Foi um dia muito especial, no calor do Brasil as crianças brincavam com mangueira no quintal da casa para se refrescarem! 

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Mas a cultura era outra, completamente diferente! E isso nos levou a refletir. Devemos adotar os costumes deste nosso novo país, ou devemos preservar nossos costumes, e as tradições de nossa cultura? Na verdade, optamos por uma mistura! Adotamos alguns dos costumes brasileiros (realmente comer à noite faz mais sentido do que tentar cozinhar no calor brasileiro do meio-dia), mas outros costumes decidimos preservar (ter a meia de presentes no pé da cama quando acordar no dia de Natal, para nós é muito importante!). Com o passar dos anos gostávamos de convidar amigos brasileiros para participar junto conosco nos costumes da cultura inglesa. O que nos ajudou a sentir parte daquela comunidade, aquela sensação de pertencimento tão importante. 

E claro, não é só no Natal que temos tradições e costumes culturais. Na páscoa, na Inglaterra, há costume de fazer, no dia de sexta-feira santa um pão doce com passas e com uma marca de cruz em cima. As crianças adoravam levantar de manhã naquele dia ao cheiro destes pãezinhos cozinhando, e correrem para comer com manteiga derretida. Uma delícia. Uma tradição para não ser esquecida. 

Durante o ano todo há possibilidade de mantermos costumes que ajudam os nossos filhos a ter prazer em ser parte de família e parte de uma comunidade. Além do Natal, há outros feriados, e até mesmo as férias. Quando não há parentes para visitar é comum, nesses dias “especiais”, sentir-se muito longe de “casa”, muito sozinha e muito triste. Precisamos nos esforçar para ter tradições especiais que nos ajudam e também aos nossos filhos, ter boas memórias, a sentirmos parte, unidos para dar conta da saudade.

“Essas tradições nos ajudam a manter e preservar a nossa identidade cultural enquanto também aprendemos e adotamos costumes de uma outra cultura. Ajudam a família a ter a sua identidade familiar, mas também a pertencer a outras”.
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 Pode ser algo tão simples como a noite em família, que é sagrado, quando comemos pizza e pipoca sentados para vermos um filme escolhido por eles. Ou o momento que vão para a reunião de obreiros da região e vão poder fazer fogueira e comer “toasted marshmellows”. 

O jogo do Brasil na copa do mundo (está acontecendo enquanto escrevo, e estou torcendo para que eles ganhem!) quando todos juntos vestimos a camiseta do Brasil e gritamos com toda força a cada “Gooooooooool”. O que por vezes, pode ser complicado quando a família é transcultural e tem que torcer para dois (ou mais) países!!! 

Essas tradições nos ajudam a manter e preservar a nossa identidade cultural enquanto também aprendemos e adotamos costumes de uma outra cultura. Ajudam a família a ter a sua identidade familiar, mas também a pertencer a outras. Mas para isso precisamos de planejamento e preparo.

Como por exemplo, levar as camisetas de futebol e uma bandeira brasileira na mala. Pesquisar onde pode comprar a mistura para pão de queijo. No meu caso, eu precisava levar marzipan na mala para poder fazer a cobertura do bolo de Natal e preparar o “Christmas Pudding” em outubro (sim, com 6 semanas de antecedência pelo menos) para que fique bom no dia! 

No nosso primeiro Natal no Brasil em 1992, um amigo querido da Inglaterra nos enviou um dinheiro para comprar algo especial para as crianças. Compramos uma árvore de Natal artificial para que pudéssemos decorar igual fazíamos na Inglaterra. E aquela árvore ficou na nossa casa, sendo decorado a cada ano até deixarmos nosso amado Brasil em 2019. 

JAN GREENWOOD: Casada com Philip, tem três filhos (FMs) e quatro netos, é missionária inglesa com Latin Link no Brasil desde 1992. Foi professora na Escola de Missões do CEM (Centro Evangélico de Missões) e coordenadora de recurso Humanos da Interserve Brasil. Morou no Brasil de 1992 a 2020 e agora reside em Yorkshire, Inglaterra. Membro da equipe coordenadora de PHILHOS/CIM Brasil/ AMTB. É autora do livro, “Famílias em Direção ao Campo” e da apostila “Minha Aventura pelo Mundo”. 

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