Vamos Mudar de País Outra Vez?

mudar de país

Quando a experiência de outras transições não elimina os desafios de começar tudo novamente em uma nova cultura.

Tinha apenas uma semana que havíamos chegado ao nosso novo país de residência. Ainda estávamos hospedados na base de uma organização que, gentilmente, nos acolhia enquanto aguardávamos o momento de nos estabelecer em nossa nova casa.

Lembro-me daquele dia como se fosse hoje: era 1º de julho, uma quarta-feira, exatamente ao meio-dia, quando uma forte sirene começou a soar por toda a cidade. Nunca, em toda a minha vida, eu havia ouvido um alerta como aquele. Naquele dia, todos na base da organização haviam saído para um passeio, e apenas meu esposo e eu permanecíamos ali.

Como havia uma enorme usina nuclear localizada próxima à base, podem imaginar o pânico que tomou conta de nós. Meu esposo ligou imediatamente para a polícia para perguntar o que estava acontecendo e qual deveria ser nosso procedimento. Foi então que recebemos uma resposta que jamais esqueceríamos: toda primeira quarta-feira do mês, ao meio-dia, a sirene toca como parte de um treinamento de segurança.

Ufa! Quase morremos de susto, já que ninguém havia nos avisado previamente.

Naquele dia percebi que o maior desafio da mudança não era a sirene. Era descobrir que eu ainda não sabia interpretar os sinais daquele novo lugar.

Essa pequena história ilustra bem como nos sentimos ao chegar a um novo país. De repente, voltamos a ser como crianças, aprendendo tudo do zero: as saudações, os costumes, as regras, a comunicação e até mesmo a forma de reagir às situações mais comuns do cotidiano.

A transição cultural nos coloca diante de um universo desconhecido e, justamente por isso, tem o poder de afetar profundamente nossa vida.

Mas será que, depois de tantas mudanças de país, a adaptação realmente fica mais fácil?

Cada transição é única
transição cultural

A mudança para uma nova cultura não é como andar de bicicleta. Depois que aprendemos, mesmo passando anos sem pedalar, basta subir novamente e logo retomamos o equilíbrio. Ah, quem dera a transição cultural fosse assim!

É comum pensarmos que, depois de mudar de país uma vez, as próximas mudanças serão muito mais fáceis. No entanto, a experiência tem me mostrado exatamente o contrário. Ela nos oferece ferramentas importantes, mas não elimina o impacto do novo.

Depois de viver várias transições e, por último, permanecer cerca de vinte anos no mesmo país, hoje estamos novamente em pleno processo de adaptação.

É verdade que as experiências anteriores têm sido muito úteis. Elas me ajudam a compreender melhor o que estou vivendo e evitam alguns erros. No entanto, não são suficientes para amenizar o impacto que uma mudança de país provoca em nossa vida.

Nesse momento, recém-chegados à nova cultura, a imagem da Ponte da Transição* se torna muito mais clara. O sentimento de pertencimento, segurança e estabilidade é abalado, dando lugar ao caos e à desorientação.

Pequenas tarefas do dia a dia tornam-se desafios, como fazer compras no supermercado, encontrar o caminho de volta para casa ou compreender normas sociais que antes pareciam tão simples.

Recentemente, por exemplo, ao responder à lista do que cada pessoa levaria para a reunião do pequeno grupo que estamos frequentando, marquei que levaria algo para o aperitivo. Logo surgiu a dúvida: afinal, o que as pessoas costumam levar para um aperitivo neste país?

Não pensei duas vezes e escrevi para a líder do grupo perguntando.

Pode parecer um detalhe sem importância. Mas é justamente a soma desses pequenos desafios que torna a adaptação tão cansativa.

No início da adaptação, tudo exige muito esforço: aprender o idioma, compreender a cultura, construir novos relacionamentos, integrar-se à comunidade local e, muitas vezes, lidar com toda a burocracia relacionada ao visto e à permanência legal no país.

Nenhuma dessas situações, isoladamente, parece tão difícil. Porém, quando acontecem ao mesmo tempo, elas consomem nossa energia física, emocional e espiritual.

Diante desse cenário, talvez nossa primeira reação seja pensar: “O que eu posso fazer para diminuir os impactos dessa travessia?”

Antes de responder a essa pergunta, porém, vale lembrar que a adaptação não depende apenas de quem chega. Ela também é profundamente influenciada pela forma como somos recebidos.

Quem acolhe também faz parte da travessia
ponte da transição cultural

Embora grande parte da responsabilidade pela adaptação esteja nas mãos de quem está chegando, essa não é uma caminhada que precisa ser percorrida sozinha. As pessoas que já estão estabelecidas também desempenham um papel precioso nesse processo.

Lembro-me novamente da sirene que nos assustou na nossa primeira semana no novo país. Bastaria que alguém tivesse nos dito: “Na primeira quarta-feira de cada mês, ao meio-dia, você ouvirá uma sirene. Não se assuste. É apenas um treinamento.” Uma informação simples teria evitado momentos de medo e insegurança.

Quantas “sirenes” existem na vida de quem acaba de chegar? Algumas não fazem barulho, mas assustam da mesma forma: um costume desconhecido, uma regra que ninguém explicou, um convite cujo significado não entendemos ou uma situação cotidiana que, para quem nasceu ali, parece óbvia.

Durante muitos anos, no país onde vivíamos anteriormente, uma das coisas que mais me dava alegria era acolher as mulheres que haviam acabado de chegar. Eu gostava de levá-las aos mercados, mostrar onde poderiam encontrar produtos com preços mais acessíveis para montar suas casas, apresentá-las às minhas amigas, à comunidade brasileira e ajudá-las nos primeiros passos naquele novo contexto.

Para mim, esses gestos aconteciam de forma muito natural. Eu não imaginava completamente o quanto pequenas atitudes como essas poderiam fazer diferença na vida de alguém que estava começando uma nova etapa.

Hoje, estando do outro lado da ponte, em um lugar onde tudo também é novo para mim, compreendo ainda mais o valor imenso dessas demonstrações de cuidado.

Um convite, uma explicação, uma carona, uma mensagem perguntando como estamos ou alguém disposto a responder às nossas dúvidas podem aliviar significativamente o peso da adaptação.

Muitas vezes, aquilo que para quem acolhe parece um gesto simples é exatamente o que transmite segurança e faz quem chegou sentir que não está sozinho.

Se você já está estabelecido em uma cultura e se sente em casa, talvez Deus queira usá-lo para tornar essa travessia mais leve para alguém.

Acolha quem acabou de chegar. Apresente essa pessoa aos seus amigos. Explique costumes que parecem óbvios para você. Ofereça-se para acompanhá-la ao supermercado, ajudá-la nos primeiros passos ou simplesmente responder às suas dúvidas sem julgamentos.

Pequenos gestos de acolhimento podem diminuir significativamente os impactos da transição e comunicar, de forma muito prática, o cuidado de Deus por aqueles que estão recomeçando.

Ferramentas para amenizar os impactos da transição

A boa notícia é que não precisamos atravessar essa fase sem direção. Existem atitudes simples que não eliminam os desafios da adaptação, mas podem tornar essa caminhada mais leve e saudável.

Não pretendo apresentar fórmulas prontas. Compartilho apenas alguns aprendizados que Deus tem me ensinado enquanto também caminho por essa ponte.

1. Identifique os sentimentos que têm surgido

Procure reconhecer quais emoções passaram a fazer parte da sua rotina e que antes não eram frequentes. Talvez sentimentos como insegurança, medo, solidão, frustração ou cansaço estejam aparecendo com mais intensidade nesse período.

Leve cada uma dessas emoções diante de Deus em oração, pedindo que Ele lhe conceda um olhar semelhante ao dEle para compreender aquilo que você está vivendo.

A transição cultural não revela apenas um novo país diante de nós; muitas vezes, ela também revela aspectos do nosso próprio coração que antes não percebíamos.

2. Não tenha vergonha de fazer perguntas

O sentimento de inadequação pode nos humilhar e nos levar ao isolamento por medo de errar. Podemos nos fechar por receio de parecer ignorantes ou inconvenientes.

Por isso, precisamos aceitar nossa posição de aprendizes. Assim como uma criança, que pergunta sem medo quando não entende algo, nós também precisamos desenvolver a humildade de perguntar.

Perguntas como: “Como devo me vestir nesta ocasião?”, “O que normalmente as pessoas levam para essa reunião?”, “Como as pessoas se relacionam nesta cultura?” ou “Qual é a maneira adequada de agir nesta situação?” fazem parte do processo de aprendizagem.

Aceitar que ainda estamos aprendendo é um dos maiores atos de humildade durante a transição cultural.

3. Não tenha pressa

Permita-se o tempo necessário para se estabelecer, encontrar uma casa, organizá-la e descansar.

Adaptar-se a uma nova cultura exige uma enorme quantidade de energia mental, emocional e física. Por isso, não se cobre resultados imediatos.

Os primeiros meses são um tempo de adaptação, aprendizado da cultura, desenvolvimento do idioma e, em muitos casos, de discernimento sobre o direcionamento que Deus tem para essa nova etapa da vida.

Nem tudo precisa ser resolvido imediatamente. Mas existe uma área que precisa de um cuidado ainda maior durante essa travessia: nossa vida espiritual.

4. Invista em sua vida devocional

Nutrir a espiritualidade durante esse período é essencial.

É possível que, em alguns momentos, você experimente uma sensação de deserto espiritual. Talvez a rotina esteja tão cheia de novidades e desafios que pareça mais difícil encontrar tempo ou disposição para se conectar com Deus.

Isso pode acontecer. No entanto, precisamos vigiar para que esse momento não abra espaço para o desânimo, a incredulidade ou dúvidas quanto ao nosso chamado.

Faça um esforço intencional para permanecer na Palavra, ouvir a voz de Deus e fortalecer sua fé em Suas promessas.

Em tempos de transição, quando tantas coisas ao nosso redor mudam, precisamos nos lembrar de que existe algo que permanece constante: o caráter e a fidelidade de Deus.

5. Seja intencional na construção de novos relacionamentos
mudar de país outra vez

Em vez de esperar que as pessoas deem o primeiro passo, tome você também a iniciativa.

Aproxime-se delas com interesse genuíno em conhecer sua história, sua cultura e seus costumes. Convide alguém para caminhar, tomar um café, compartilhar uma refeição, pintar as unhas ou simplesmente orar junto com você.

Pequenos gestos podem abrir portas para amizades profundas e tornar essa travessia muito mais leve.

Estas são apenas algumas práticas que tenho procurado colocar em ação enquanto me estabeleço nesta nova cultura.

Se você está vivendo uma transição cultural, espero que essas reflexões possam encorajá-lo a atravessar essa ponte com mais consciência, paciência e dependência de Deus.

E, se você já está estabelecido em um lugar, espero que também possa olhar ao redor e perceber aqueles que estão chegando. Talvez Deus tenha colocado você naquele caminho para ser uma ponte de acolhimento, segurança e cuidado.

Em breve, espero compartilhar como Deus tem me conduzido para as próximas etapas dessa caminhada.

Afinal, embora ainda estejamos aprendendo a interpretar os sinais de uma nova cultura, podemos seguir em frente com a segurança de que nunca caminhamos sozinhos.

Deus continua presente em cada etapa da travessia.

*Ponte da Transição: A Ponte da Transição é uma metáfora que representa o caminho percorrido por uma pessoa ao deixar uma cultura conhecida e se adaptar a uma nova realidade. Ela ilustra as diferentes fases desse processo, marcado por despedidas, incertezas, aprendizados, desafios e, gradualmente, a construção de um novo sentimento de pertencimento. A transição cultural é uma caminhada, e compreender suas etapas nos ajuda a atravessá-la com mais consciência e preparo.

Você pode encontrar mais dicas para a transição cultural no livro Transição Cultural: um passo a passo rumo à nova cultura. Leia mais artigos relacionados à vida entre cultura no Blog CMM

Daniela Condor

Colaboradora da redação do Blog CMM, esposa, mãe, servindo entre culturas desde 1995. Atualmente vivendo em um país da África Ocidental.

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