A Maternidade no Contexto Multicultural

maternidade

Uma perspectiva bíblica sobre a maternidade para a glória de Deus

Toda mãe, em algum momento, já teve que responder à temida pergunta: “Passou o dia fazendo o quê?”. E, provavelmente, também já precisou respirar fundo para manter a gentileza ao responder.

Vivemos envolvidas em afazeres, com listas intermináveis de tarefas coladas na porta da geladeira ou adaptadas a uma nova rotina, em uma casa que ainda está aprendendo a se tornar lar em outra cultura. Por isso, quando alguém nos questiona sobre a relevância da nossa atuação no Reino de Deus, podemos nos sentir deslocadas, como se estivéssemos em falta. Mas quero declarar que não precisa ser assim. O dia a dia de uma mãe não pode jamais ser menosprezado ou considerado algo meramente secular.

Maternar é um chamado. Quando vivido com diligência, pode causar grande impacto no mundo e promover o avanço do Reino de Deus na terra. Cada detalhe do cotidiano, por mais ordinário que pareça, pode ser feito para a glória de Deus: “Assim, quer vocês comam, bebam ou façam qualquer outra coisa, façam tudo para a glória de Deus” (1 Coríntios 10.31).

Ainda que apreciemos a proposta de Paulo, temos a tendência de classificar o que pode ou não ser feito para a glória de Deus. Pensamos que pregar para multidões, ensinar em classes, liderar, escrever livros, viajar pelas nações compartilhando as boas novas ou influenciar muitas pessoas são ações elevadas e espirituais. E, de fato, são. Mas não são as únicas.

Essa visão que divide a vida entre o sagrado e o secular rouba das mães multiculturais a alegria de viver sua fé de maneira integral. Muitas vivem frustradas por acreditarem que, por estarem em casa, mesmo que em outro continente, não há nenhuma utilidade. Ledo engano.

Esse dualismo impede que vejamos a beleza e a grandeza de servir a Deus nos detalhes mais simples do cotidiano. Deus nos vê 24 horas por dia, sete dias por semana. E é nesse cotidiano, quando vivido com intenção e entrega, que nosso propósito floresce. Pequenas ações, realizadas com fé, têm grande valor diante d’Ele.

É verdade que, nessa fase da vida, decisões sobre trabalho e vocação precisam ser repensadas. Cada mulher vive uma realidade única e isso inclui aquelas que estão criando filhos entre culturas, lidando com adaptações constantes, ausência de rede de apoio e novas dinâmicas familiares. Ainda assim, é necessário falar sobre isso. O peso da dúvida, da culpa e do medo assola muitas mães e eu mesma não escapei.

maternidade no contexto multicultural

No início da minha primeira gestação, temi parar. A vida cheia de programações e relacionamentos suportaria o silêncio do puerpério e dos primeiros anos de tantos cuidados, ainda mais longe de referências familiares? Eu me perguntava. E os projetos, os ensinos, os livros, as responsabilidades que eu carregava? Trocar tudo isso por fraldas e noites em claro? Me sentia mal por pensar assim. Afinal, ter um filho era a realização de um sonho. Mas aqueles pensamentos insistiam.

Mesmo com Deus ministrando tanto ao meu coração sobre a importância da maternidade, eu ainda desejava viver tudo o que fazia antes. Queria conciliar tudo, administrar o tempo, ser bem-sucedida em todas as frentes. Mas me decepcionei em cada tentativa, até que compreendi o valor da prioridade.

Percebi que, após alguns meses ou anos, eu poderia retomar muitos dos projetos que tanto amo. Mas eu jamais poderia amamentar, dar banhos ou brincar com meus filhos depois de alguns anos. O tempo de viver esse propósito era agora. Entendi Eclesiastes 3, e descansei.

Se você se perguntar: “O que eu só posso fazer agora?”, sua resposta revelará sua prioridade e seu foco ministerial. Há um tempo para todo propósito debaixo do céu. Discernir os tempos e estações, e tomar decisões com sabedoria, pode moldar a nossa história de maneira profunda.

Às vezes, achamos que precisamos pausar tudo para viver a maternidade. Mas, muitas vezes, é justamente na maternidade que aquilo que Deus nos chamou a viver acontece de forma mais profunda. Você já está servindo! Não importa a idade dos seus filhos ou o lugar onde você está. Seu campo de atuação está bem diante de você: no berço, ao redor da mesa, no quarto das brincadeiras ou na varanda ensolarada. Esse é o seu público agora.

Deus é o doador dos dons com os quais servimos. E Ele também nos revela as oportunidades de serviço. Se você tem dons de liderança, ensino, misericórdia, fé, hospitalidade, por que não aplicá-los com excelência no cuidado dos seus filhos, inclusive em um contexto cultural diferente do seu? O Espírito Santo nos capacita com dons para aquilo que é útil: “Para que, em todas as coisas, seja Deus glorificado, por meio de Jesus Cristo” (1 Pedro 4.10-11).

Nenhuma mãe é igual. Somos capacitadas de forma diversa para cumprir propósitos únicos com filhos singulares. Isso é dom de Deus! Quando usamos com zelo e intencionalidade nossas habilidades em favor da nossa família, honramos Aquele que nos confiou tão grande vocação.

Quando Paulo nos convida a viver para a glória de Deus, ele menciona justamente os exemplos mais comuns e repetitivos da nossa agenda diária: comer e beber. Embora essenciais à sobrevivência, essas ações se tornaram automáticas, tão habituais que esquecemos de celebrá-las, de render graças e de glorificar o Deus eterno por meio delas.

Muitas vezes, medimos a espiritualidade do nosso lar pelos momentos formais de devoção. No entanto, precisamos despertar para a realidade de que a espiritualidade da nossa casa é medida também por cada gesto cotidiano, desde o despertar até o repouso da noite. É o “bom dia”, a gentileza, a mesa compartilhada, o acolhimento, o esforço diário para construir um ambiente de paz, mesmo quando tudo ao redor ainda parece estranho ou em adaptação.

Aos colossenses, Paulo escreveu: “Tudo o que fizerem, façam de todo o coração, como para o Senhor, e não para os homens” (Colossenses 3.23). Tudo é tudo. Nada está fora do tudo. Tudo inclui lavar roupas, trocar fraldas, fazer compras, amamentar, organizar a casa, adaptar receitas, aprender novas rotinas, ensinar valores…Tudo isso pode e deve promover a glória de Deus!

Essa revelação transforma o nosso olhar e diminui a murmuração. Também gera leveza, pois nos convida a deixar o fardo pesado da busca por reconhecimento. Precisamos de uma nova consciência para viver plenamente nossa rotina. Fazer tudo como para o Senhor é lindo de se dizer, mas desafiador de viver.

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Então, prepare-se para preparar o café da manhã para Jesus. Lavar o banheiro para Jesus. Amamentar, educar, cuidar… de Jesus. Essa verdade nos confronta e também nos consola. Nos chama a viver com mais intencionalidade e dependência.

A vida com propósito exige vigilância. Em 1 Coríntios 13, encontramos o padrão do amor, o tipo de amor que somos chamadas a viver dentro de casa. Revelar Cristo através das nossas ações, criando um ambiente de graça, é um desafio diário, especialmente quando estamos emocionalmente cansadas ou culturalmente deslocadas.

Nosso Deus é presente. Ele é Emanuel: Deus conosco. Deus em nossa casa. Esse é o motivo pelo qual nosso trabalho diário como mães é sagrado. Mesmo quando não percebemos, o Espírito Santo nos lembra, suavemente, no meio da rotina.

Fazer grandes coisas aos olhos humanos é bonito. Mas viver o amor sacrificial no ambiente mais íntimo da casa…esse é o coração do Evangelho.

Se você está confiando em Jesus Cristo e servindo a sua família com alegria, então o seu trabalho é eternamente significativo. Onde quer que você esteja, em qualquer cultura, em qualquer estação, nada do que você faz é pequeno.

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Jade Simões

Brasileira, natural do Ceará, é Obreira multicultural, escritora e professora. Apaixonada pela feminilidade, tem se dedicado ao ensino e discipulado de moças e mulheres. É casada com Paulo Diego, mãe do Benjamin e da Abigail. A família está há 9 anos na África ocidental.

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