Entre Culturas com Olhos Iluminados

devocional CMM

Transformando o olhar sobre a vida através do conhecimento de Deus

“Mestre, eu quero ver!” Marcos 10:51

Algum tempo atrás, saímos de casa para ir a uma repartição pública. Era um dia lindo e ensolarado. Tirei um livro da bolsa para ler, mas logo percebi que havia esquecido meus óculos em casa.

Eu não consigo ler nem o celular sem óculos, muito menos um livro. Mas, para minha surpresa, quando abri o livro, consegui ler perfeitamente. Fiquei espantada.

Quando cheguei em casa, fui pesquisar o que havia acontecido. Descobri que, diante da luz intensa do sol, nossa pupila se contrai, deixando entrar menos luz, mas concentrando melhor a visão. É como se nossos olhos recebessem “foco extra” naturalmente.

Naquele momento compreendi algo que continuou ecoando dentro de mim: talvez o que precisamos não sejam mais lentes, mas mais luz.

Essa experiência simples me levou a refletir sobre a visão espiritual e sobre como precisamos que Deus ilumine nosso entendimento. Enquanto meditava nisso, lembrei-me do relato do Evangelho segundo Marcos sobre Bartimeu, o filho de Timeu, o homem cego que mendigava à beira do caminho em Jericó.

Aquele homem clamava com uma fé impressionante: “Jesus, Filho de Davi, tem misericórdia de mim!” É interessante pensar nisso, porque ao chamar Jesus de “Filho de Davi”, Bartimeu não estava apenas pronunciando um título religioso. Ele estava reconhecendo quem Jesus realmente era: o Messias prometido, o Rei enviado por Deus. Enquanto muitos apenas caminhavam ao lado de Jesus sem compreendê-Lo verdadeiramente, um homem cego conseguia enxergar aquilo que tantos olhos abertos ainda não percebiam.

Então Jesus lhe faz uma pergunta aparentemente óbvia: “O que queres que eu te faça?” E Bartimeu responde simplesmente: “Eu quero ver.”

Marcos relata esse acontecimento logo após narrar o pedido de Tiago e João. Eles queriam sentar-se um à direita e outro à esquerda de Jesus em sua glória. É impressionante perceber que, nos dois relatos, Jesus faz praticamente a mesma pergunta: “O que vocês querem que eu lhes faça?” Mas as respostas são completamente diferentes.

Os discípulos pedem posição, honra e destaque. Ainda estavam pensando em glória segundo os padrões humanos. Imaginavam um reino visível, cargos de autoridade e reconhecimento. No entanto, o caminho da glória para Jesus passava pela cruz.

Enquanto os discípulos sonhavam com lugares de destaque, Bartimeu fazia um pedido muito mais profundo. Ele não pediu posição, reconhecimento, honra ou poder. Seu pedido era simples: “Eu quero ver.”

Que contraste impressionante. Os que viam não conseguiam enxergar, e aquele que era cego via melhor do que todos.

Oh, amadas, da mesma maneira, podemos caminhar com Jesus durante muitos anos em nossa jornada multicultural entre as nações e, ainda assim, nossos olhos espirituais estarem embaçados, incapazes de percebê-Lo como Ele realmente é.

Os discípulos ainda não compreendiam o caráter do Senhor. Suas mentes estavam presas às ideias religiosas e culturais do seu tempo. Esperavam um Messias triunfal segundo os padrões humanos. Da mesma forma, nossa mente também pode se endurecer por falsas ideias, conceitos e valores que assimilamos ao longo da caminhada cristã.

Muitas vezes repetimos práticas, discursos e opiniões sem sequer parar para perguntar: “Será que isso que aprendi é realmente a maneira que Jesus quer que vivamos?”

Estamos constantemente usando lentes para interpretar tudo o que acontece ao nosso redor. O problema é: será que estamos usando a lente certa?

Olhamos para a maneira como exercemos nosso ministério através das lentes do nosso discipulado, da igreja onde fomos formadas ou da organização à qual pertencemos e, muitas vezes, julgamos o outro sem sequer nos assentarmos aos pés do Senhor para perguntar: “Jesus, isso realmente está certo?”

O que precisamos, realmente?
entre culturas com olhos iluminados

Olhamos para a política, para os discursos inflamados, para os influenciadores que dizem exatamente aquilo que desejamos ouvir e, sem perceber, somos arrastadas pela lógica da polarização e pelos dualismos deste século, sem pedir ao Senhor discernimento para enxergar além das narrativas humanas.

Olhamos para nós mesmas e somos cruéis conosco. Nos sentimos insuficientes, feias ou fracassadas porque estamos usando as lentes do padrão de beleza, sucesso e valor deste mundo.

Talvez o problema não seja falta de lentes. Talvez o que nos falta seja luz.

Percebi que o que precisamos não é apenas de mais informação, mais opiniões ou mais conhecimento, mas da própria luz de Cristo iluminando nosso entendimento. Quanto mais nos parecemos com o mundo, mais nossa luz se apaga. E somente quando permanecemos na presença de Jesus conseguimos enxergar o mundo como ele realmente é.

O apóstolo Paulo escreveu:

À luz das escrituras

“Oro para que o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória, lhes dê espírito de sabedoria e de revelação, no pleno conhecimento dele. Oro também para que os olhos do coração de vocês sejam iluminados…” (Efésios 1:17–18)

Paulo orava para que os irmãos conhecessem profundamente quem Deus é. Seu desejo era que seus corações enxergassem a esperança e os tesouros espirituais que Ele nos oferece. Porque a verdadeira iluminação não vem apenas do esforço humano; ela vem do Espírito de Deus.

É exatamente isso que tenho buscado para minha vida. Quero ver todas as coisas — o mundo ao meu redor, a mim mesma e a igreja do Senhor — à luz da Palavra de Deus. Quero que Deus ilumine meu entendimento para conhecê-Lo como Ele realmente é, e não segundo as ideias que formei sobre Ele, sobre mim ou sobre o mundo.

Então me lembrei das palavras de João Calvino em As Institutas:

“Quase toda a soma de nossa sabedoria consiste no conhecimento de Deus e no conhecimento de nós mesmos.”

Ver Deus com clareza nos leva a conhecer a nós mesmas de maneira verdadeira — e isso muda tudo.

A melhor perspectiva

Recentemente, me chamou a atenção ao ouvir relatos de astronautas sobre aquilo que chamam de Overview Effect, algo como “efeito da visão panorâmica”. Muitos deles contam que, ao verem a Terra do espaço, algo muda dentro deles. De longe, o planeta parece pequeno, frágil e sem as fronteiras que aqui embaixo tanto nos dividem.

O astronauta Scott Kelly, que passou quase um ano no espaço, relatou que essa experiência transformou sua maneira de enxergar a vida. Problemas que antes pareciam enormes perderam a proporção. As divisões humanas passaram a parecer pequenas diante da grandeza e fragilidade da Terra.

Enquanto eu meditava nisso, pensei que assim como um astronauta precisa sair da Terra para enxergá-la corretamente, nós precisamos estar em Jesus para enxergar corretamente o mundo em que vivemos.

Quanto mais somos moldadas pelos padrões deste século, mais nossa visão se torna distorcida. Mas quando permanecemos na presença de Jesus, recebemos uma nova perspectiva. Passamos a enxergar além das narrativas humanas, além das ambições pessoais e além dos valores deste mundo. E essa nova visão muda não apenas o que pensamos, mas também a forma como vivemos.

Por isso, como mulheres multiculturais, precisamos nos perguntar com sinceridade: qual tem sido nossa resposta à pergunta de Jesus: “O que queres que eu te faça?”

O que temos buscado verdadeiramente em nossa caminhada com o Senhor? Será que nossos pedidos se parecem mais com os dos discípulos — desejando visibilidade, reconhecimento, relevância, honra e influência segundo os padrões do mundo — ou estamos clamando como Bartimeu: “Eu quero ver”?

E o lindo é que a primeira coisa que Bartimeu viu quando seus olhos foram abertos foi o próprio Jesus.

Ah, nós também precisamos ver Jesus. É Sua luz que revela todas as coisas. É através dEle que aprendemos a enxergar o mundo, a nós mesmas e o Reino de Deus de maneira correta.

Como diz o salmista:

“Os mandamentos do Senhor são límpidos e trazem luz aos olhos.” (Salmos 19:8)

Jesus foi muito claro quando disse:

“Quem quiser tornar-se importante entre vocês deverá ser servo, e quem quiser ser o primeiro deverá ser escravo de todos.” (Marcos 10:43–44)

No Reino de Deus, enxergar corretamente significa viver de maneira diferente. Significa deixar as aspirações mundanas e tomar nas mãos a toalha e a bacia, seguindo o caminho do próprio Cristo — o caminho do serviço, da humildade e da entrega.

Então fica a pergunta: o que queres que Jesus te faça?

Que a resposta seja:

“Senhor, eu quero ver.”

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Daniela Condor

Colaboradora da redação do Blog CMM, esposa, mãe, servindo entre culturas desde 1995. Atualmente vivendo em um país da África Ocidental.

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