
Uma perspectiva multicultural de celebrar um aniversário
Recentemente, participei de um curso online sobre gestão do tempo e multiculturalidade. Em uma das salas de discussão, uma mulher multicultural brasileira que trabalhava em um país africano compartilhou uma maneira criativa de se adaptar a diferentes conceitos de pontualidade. Dá para acreditar que ela costumava fazer três bolos de aniversário para a festa da filha? Sou uma confeiteira amadora que adora cozinhar, mas até eu fiquei imaginando o que isso significaria para mim, que tenho três filhos! Mas vamos entender como ela fez isso com tanta graça:
O primeiro bolo era reservado para os convidados que realmente chegavam na hora certa, geralmente colegas norte-americanos e europeus, além dos pais e filhos da escola internacional que a filha dela frequentava. Eles cantavam alegremente “Parabéns a você” em inglês. O segundo bolo era reservado para o próximo grupo de convidados, que geralmente chegava com uma ou duas horas de atraso: seus amigos latino-americanos. As versões quase infinitas de “Parabéns para você” eram cantadas em meio a palmas, gritos altos e piadas engraçadas sobre com quem a menina se casaria no futuro. Enquanto o primeiro grupo de convidados saía aos poucos da festa e o segundo grupo ainda se divertia, os convidados locais e vizinhos finalmente começavam a chegar (cerca de 5 horas após o início da festa). Depois que o anfitrião se certificava de que os convidados de maior status social haviam chegado, o pastor da igreja local proferia uma palavra de bênção e uma oração, e o terceiro bolo era então servido, garantindo que houvesse o suficiente para que os convidados levassem um pedaço para casa para o resto da família.
Você consegue imaginar quantos convidados satisfeitos participaram dessa festa de aniversário? Consegue imaginar o desgaste que isso representava a cada ano para a mãe que organizava tudo?
Minhas muitas velinhas de aniversário

Embora eu nunca tenha me esforçado tanto para atender à cultura de todos os meus convidados, devo admitir que admiro a coragem e o empenho dessa mãe. Também devo admitir que, no passado, já organizei dois eventos diferentes para a mesma comemoração e que já organizei festas “enganando” quanto ao horário de chegada, escrevendo um horário diferente nos convites, dependendo da tendência dos convidados de chegarem atrasados. Também já organizei festas bilíngues, nas quais tudo o que era dito era traduzido simultaneamente e o “Parabéns a você” era cantado em diferentes idiomas. Organizei alguns eventos em que TODOS foram convidados, independentemente da cultura, do idioma, dos laços familiares e de outros fatores. Alguns foram bem-sucedidos, como meu aniversário de 40 anos, que organizei junto com o aniversário de 70 anos do meu pai. Naquele dia ensolarado, em um restaurante no alto de uma montanha suíça, pude observar como meus diversos círculos de amigos se misturavam, e todas as gerações estavam incluídas, sem deixar ninguém de fora. E, na verdade, foi a única vez na minha vida em que tive dinheiro suficiente para pagar por uma comemoração tão grande e exclusiva! Mas também devo admitir que tive outras experiências em que as diferentes culturas e idiomas do grupo não se conectaram harmoniosamente, e suspeito que alguns convidados tenham saído de lá com um leve choque cultural. Nesses momentos, prefiro nem saber o que estão falando pelas minhas costas!
Um novo tempo

Mas a história dos três bolos de aniversário também me faz refletir até que ponto precisamos nos adaptar aos outros e onde devemos traçar o limite sensato de “já basta”. Não há um momento em que devemos afirmar “é assim que eu sou” e as pessoas, na verdade, deveriam começar a se adaptar a nós?
É realmente uma questão complicada que venho me perguntando repetidamente. Como filha de pais que vivem no exterior (ATCK) e, além disso, filha de trabalhadores globais, aprendi a me integrar, a me comportar bem e a agradar aos outros. Vivo em um casamento intercultural há 22 anos e já nos mudamos muitas vezes. Atualmente, moramos no Brasil, o país do meu marido, perto de sua ENORME família. Nossos filhos e eu fomos recebidos de braços abertos e com muita generosidade, a ponto de minha sogra usar a camiseta da Suíça em todos os jogos de futebol da Copa do Mundo sempre que a Suíça jogava. Falo quatro idiomas sem sotaque. Já morei em três continentes diferentes. Tenho 45 anos, prestes a completar 46. E devo admitir que, às vezes, me sinto um pouco insegura em relação a ser eu mesma (e quem é essa pessoa, afinal?). Devo ter uma opinião firme e lidar com descontentamento velado ou mal-entendidos, ou devo me adaptar à cultura do país anfitrião (é isso que aprendemos nos cursos sobre adaptação transcultural, não é?) e perder uma pequena parte da minha autenticidade, porque assim dói menos?
Meu aniversário está se aproximando. E, este ano, não quero ter o trabalho de organizar uma festa de aniversário. Não quero pensar em como meus diferentes grupos de amigos vão se dar, qual idioma devo usar, que tipo de comida devo servir e se alguém vai se sentir excluído caso algum convidado poste uma foto nas redes sociais sem pedir minha permissão.

Só quero passar tempo com quem realmente me entende. Só quero gastar dinheiro com quem ainda vai fazer parte da minha vida daqui a 5, 10 ou 20 anos. E é isso que vou fazer este ano. Porque, claro, no ano que vem vou sentir saudades de uma festa animada e feliz, cheia de gente maravilhosa! Reservei dois quartos para uma noite em um hotel perto da margem do rio no dia do meu aniversário, no meio da semana, a duas horas de distância da capital, Aracaju, onde moramos. Convidei meu marido e meus três filhos, de 17, 15 e 10 anos. Talvez eu até faça meu próprio bolo de aniversário de cenoura, com pequenas cenouras suíças doces para decorar, que venho guardando para essa ocasião. Este ano, quero poder ser EU MESMA, sem a necessidade de me adaptar aos outros e sem me perguntar se o que visto, faço e digo é culturalmente adequado. Quero falar suíço-alemão, português e francês no meu aniversário. Quero ler em inglês no meu aniversário. Quero poder dizer à minha família: “vamos tomar café da manhã às 9” e ter a certeza de que todos chegarão na hora certa. Quero poder ir a um restaurante onde ninguém da igreja nos reconheça e fique se perguntando por que a mulher multicultural usa brincos e esmalte pink nos dedos dos pés. Quero me divertir e dar risadinhas com as crianças, e fugir do calor no refúgio de uma sala com ar-condicionado quando sentir que preciso de um tempo aos sós.
Será que isso faz de mim uma trabalahdora global egoísta passando por uma crise de meia-idade?
Siga o CMM no Instagram e fique por dentro de nossa programação. Leia mais artigos da Irene Gasser Rodrigues relacionados à vida da Mulher Multicultural no blog CMM.


