
A importância de considerar os filhos na hora da mudança
A primeira vez que passamos por uma transição cultural com um filho pequeno, meu filho tinha apenas 3 anos. Antes da mudança, eu me preparei. Li o livro Estamos de Mudança, participei de um treinamento oferecido pela nossa organização enviadora e ouvi muitos conselhos de pessoas que já tinham passado por experiências semelhantes.
Entre as orientações recebidas estava levar objetos familiares: brinquedos preferidos, livros conhecidos, pequenas coisas que ajudassem a criança a reconhecer algo do seu “mundo” no novo lugar. Fiz tudo isso com bastante cuidado. Cheguei ao novo país confiante, acreditando que estava preparada para ajudar meu filho nessa fase.
Muitas pessoas também diziam algo que parecia fazer sentido naquele momento:
“Ele é pequeno, tem apenas três anos. Não vai sentir tanto a mudança, porque vocês estarão com ele.”
Mas a realidade foi diferente do que eu imaginava.
Com o tempo percebi que, mesmo sendo pequenos, os filhos vivenciam a transição de forma profunda. Eles também experimentam perdas: deixam para trás amigos, familiares, lugares conhecidos, cheiros, sons e rotinas que formavam o universo deles. Ao mesmo tempo em que nós, adultos, estamos lidando com o nosso próprio choque cultural, nossos filhos também estão enfrentando o deles — muitas vezes sem ter ainda as palavras necessárias para expressar o que estão sentindo.
Hoje estamos vivendo nossa terceira transição cultural. Agora temos dois filhos: o mais velho com 9 anos e a pequena com 4. Cada mudança trouxe aprendizados novos e mostrou que acompanhar emocionalmente os filhos nesse processo é uma das tarefas mais delicadas e importantes para famílias que vivem em contextos transculturais.
A adaptação de uma criança a um novo país não acontece apenas através de estratégias práticas. Ela passa, sobretudo, por presença, escuta e acolhimento.
Por isso, compartilho algumas orientações que têm nos ajudado ao longo dessas transições.
1. Reconheça que a criança também vive perdas reais
Mesmo quando são muito pequenas, as crianças percebem a ruptura. Elas deixam para trás pessoas que amam, lugares onde se sentiam seguras e experiências que faziam parte da rotina. Às vezes os adultos subestimam isso porque acreditam que a criança “logo esquece”. No entanto, muitas vezes essas perdas aparecem em forma de tristeza, irritação, regressões ou insegurança.
Reconhecer que existe uma perda é o primeiro passo para ajudar a criança a processá-la.
2. Valide as emoções da criança
Em vez de minimizar sentimentos com frases como “não precisa ficar triste” ou “logo você esquece”, é importante acolher o que ela está sentindo. Frases simples como:
“Eu sei que você sente saudade.” “É difícil mesmo quando a gente muda de lugar.” “Eu também sinto falta de algumas coisas.”
Esse tipo de postura comunica à criança que seus sentimentos são legítimos e que ela não precisa escondê-los.
3. Leve elementos de continuidade

Objetos familiares ajudam a criar uma ponte entre o que ficou para trás e o novo ambiente. Um brinquedo especial, um travesseiro, um livro favorito ou até mesmo certos hábitos da casa ajudam a criança a perceber que, embora o lugar tenha mudado, algumas coisas importantes continuam presentes.
Esses pequenos detalhes podem trazer uma sensação significativa de segurança.
4. Preserve rotinas sempre que possível
A rotina é uma grande aliada da adaptação infantil. Em meio a tantas mudanças, manter alguns horários e práticas familiares — como a história antes de dormir, a oração em família ou momentos específicos de convivência — ajuda a criança a sentir que ainda existe uma estrutura estável.
Quando o mundo ao redor parece diferente, a rotina funciona como um ponto de referência.
5. Apresente o novo país de forma gradual e positiva

A adaptação também acontece quando ajudamos a criança a descobrir coisas boas no novo lugar. Isso pode incluir, explorar parques, experimentar comidas locais, aprender algumas palavras do idioma ou conhecer aspectos culturais interessantes.
Essas experiências ajudam a criança a construir uma relação afetiva com o novo contexto.
6. Ajude na construção de novos vínculos
Amizades são extremamente importantes para a adaptação das crianças. Sempre que possível, procure oportunidades de interação com outras crianças: na igreja, em parques, na escola ou em atividades comunitárias.
No contexto multicultural, muitas vezes as relações levam mais tempo para se desenvolver, mas esses espaços de convivência são fundamentais.
7. Observe mudanças de comportamento
Crianças nem sempre conseguem explicar o que estão sentindo com palavras. Por isso, muitas vezes as emoções aparecem em forma de comportamentos diferentes: mais sensibilidade, irritação, regressão em algumas habilidades ou maior necessidade de proximidade com os pais.
Esses sinais não são necessariamente problemas, mas formas de expressão emocional.
8. Dê tempo ao processo
A adaptação cultural não acontece da noite para o dia — nem para os adultos, nem para as crianças. Cada filho tem seu próprio ritmo para lidar com as mudanças. Comparações ou expectativas irreais podem gerar frustração.
Paciência e constância fazem grande diferença ao longo do tempo.
9. Crie novas memórias no novo lugar
Um dos caminhos mais eficazes para ajudar na adaptação é criar experiências positivas no novo país. Passeios simples, descobertas em família, celebrações e pequenas aventuras ajudam a construir memórias que passam a fazer parte da história da criança naquele lugar.
Aos poucos, o novo ambiente deixa de ser apenas “o lugar estranho” e passa a se tornar parte da vida.
10. Lembre-se de que a família é o porto seguro
Em meio a tantas mudanças — idioma, cultura, clima, alimentação, rotina — existe algo que permanece constante para a criança: a presença dos pais. O vínculo familiar é o principal fator de segurança emocional durante as transições.
Mesmo quando não temos todas as respostas ou soluções, nossa presença atenta e amorosa comunica à criança que ela não está sozinha nesse processo.
Para famílias missionárias, transições fazem parte da caminhada. Elas trazem desafios, mas também oportunidades de crescimento, amadurecimento e confiança no cuidado de Deus. Atravessar essas mudanças junto com os filhos exige sensibilidade, disposição para aprender e muita graça para conosco mesmas.
Nenhuma mãe faz isso perfeitamente. Mas, com amor, escuta e dependência de Deus, é possível transformar esses momentos de mudança em experiências de fortalecimento familiar e espiritual.
— Ana Costa
Trabalhadora multicultural no Oriente Médio
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Transição Cultural: O passo a passo para uma jornada saudável rumo à nova cultura, é um guia prático para quem enfrenta mudanças entre culturas. Nascido a partir das experiências do movimento Confissões de uma Mulher Multicultural (CMM), o livro responde às dúvidas mais comuns de quem está começando ou já vivendo uma transição: por onde começar, como se adaptar e como lidar com os desafios emocionais, físicos e espirituais dessa jornada.
Com uma abordagem sensível e cheia de orientações práticas, a obra funciona como uma verdadeira bússola para diferentes fases da transição cultural — desde a decisão de partir até o processo de adaptação. Reunindo experiências reais e conselhos de quem já viveutransições culturais, o livro encoraja o leitor a viver essa caminhada com mais preparo, equilíbrio e esperança, lembrando que ninguém precisa passar por isso sozinho.


