
“Mas faça-se tudo decentemente e com ordem.” (1 Coríntios 14:40)
Confesso que não sou apaixonada por fazer faxina. No entanto, amo a sensação que ela traz ao final: alívio, leveza, beleza e gratidão… a felicidade de andar por cada cômodo da minha casa no seu melhor momento. Há pessoas que têm dias marcados para limpar a casa, enquanto outras deixam tudo acumular até chegar ao limite, quando já não conseguem mais suportar a bagunça e pensam: “preciso fazer algo urgente!”. Sempre penso em como isso também revela muito sobre a nossa vida interior. E talvez essa percepção seja ainda mais necessária para nós, mulheres que vivemos entre culturas, porque a vida transcultural nos convida constantemente a reorganizar aquilo que carregamos: o que aprendemos em nossa cultura de origem, o que encontramos na cultura de acolhimento e aquilo que, ao longo do caminho, passamos a construir dentro de nós.
Assim como cuidamos do ambiente externo, precisamos cuidar do nosso interior. A Palavra de Deus nos lembra: “Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida” (Provérbios 4:23). A forma como lidamos com a ordem da casa muitas vezes reflete como lidamos com a ordem da alma. Há momentos em que precisamos parar e reconhecer que algo dentro de nós também precisa de limpeza. Na vida transcultural, essa necessidade pode aparecer de maneiras muito particulares. Há mudanças de idioma, costumes, ritmos, formas de relacionamento, maneiras diferentes de expressar afeto, autoridade, respeito e até espiritualidade. Nem tudo o que encontramos em uma nova cultura precisa ser incorporado, assim como nem tudo aquilo que trouxemos conosco precisa permanecer exatamente como era.
1. Reconhecer a bagunça interior
Muitas dores que carregamos não foram devidamente processadas. Elas ficam guardadas como alimentos esquecidos na geladeira, silenciosamente estragando. São memórias, rejeições, perdas e feridas antigas que continuam ocupando espaço dentro de nós. E, enquanto não são tratadas, permanecem influenciando nossas emoções, nossas reações e até a forma como enxergamos a vida. Algumas dessas dores podem estar relacionadas às despedidas, à distância da família, à saudade de casa, às perdas de referências, às mudanças de lugar e à sensação de estar sempre deixando alguma coisa para trás. Às vezes, mudamos de país, mas levamos conosco emoções que nunca tivemos tempo de organizar.

Essas dores não processadas criam narrativas internas que tentam dar sentido ao sofrimento: “nada dá certo para mim”, “ninguém me valoriza”, “estou cansada de tudo”. Essa voz, muitas vezes, é a voz da vitimização. Ela não nasce da verdade, mas de feridas abertas. Essas histórias podem ser nossas, ou podem ser geracionais: narrativas que carregamos ao longo da história, dando continuidade às dores de nossos antepassados. Assim, podemos até mesmo insistir na repetição de erros, pecados e tradições prejudiciais. E fazemos isso de forma inconsciente, na maioria das vezes. E, quando vivemos entre culturas, podemos carregar ainda mais narrativas: “na minha cultura era assim”, “onde eu cresci as pessoas faziam diferente”, “aqui ninguém me entende”, “eu nunca vou pertencer de verdade”. Algumas dessas frases revelam diferenças culturais reais; outras podem revelar feridas que precisam ser tratadas. O desafio é aprender a discernir uma coisa da outra.
2. Discernir o que precisa ser limpo, guardado ou transformado
Só nos tornamos conscientes quando abrimos os olhos para ver. É como abrir aquele quartinho da bagunça, onde entulhamos várias coisas ao longo do tempo, ou aquela gaveta na sala que tem de tudo um pouco e na qual nada mais presta, mas não temos coragem de jogar fora nem de gastar tempo organizando aqueles pequenos detalhes. Mas a renovação vem com a nossa disposição. A Bíblia nos convida a renovar a nossa mente: “E não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso entendimento” (Romanos 12:2). Deus deseja substituir essas narrativas de sofrimento e vitimismo por Sua verdade eterna. Essa renovação também é fundamental para quem vive entre culturas. Precisamos aprender a olhar para nós mesmas e perguntar: o que é princípio e o que é costume? O que é verdade bíblica e o que é apenas uma forma cultural de fazer as coisas? O que preciso aprender com esta nova cultura e o que preciso preservar daquilo que Deus construiu em mim? A maturidade transcultural nasce, muitas vezes, dessa capacidade de discernir sem rejeitar e de acolher sem perder a identidade.
Fazer uma “faxina na alma” exige coragem. É preciso revisitar memórias, reconhecer dores e permitir-se sentir. Há momentos em que será necessário chorar o que ficou preso no coração por anos. A Bíblia nos mostra que há tempo para todas as coisas: “tempo de chorar e tempo de rir” (Eclesiastes 3:4). Chorar não é fraqueza, é parte do processo de cura. Quando não choramos, muitas vezes endurecemos. Muitas mulheres fogem das lágrimas, quando na verdade o choro pode trazer grande renovo para suas vidas! E quantas lágrimas ficam escondidas no cotidiano transcultural? Lágrimas depois de uma despedida no aeroporto, depois de uma ligação com a família que ficou longe, depois de perceber que uma data importante passou sem as pessoas que amamos por perto. Lágrimas diante da dificuldade de criar vínculos, de ser compreendida, de aprender uma nova língua ou de perceber que o lugar que um dia era estranho agora também se tornou parte de quem somos. Há lutos transculturais que precisam ser chorados para que possamos continuar caminhando.
Esse processo também envolve discernimento. Assim como ao organizar um guarda-roupa, precisamos olhar para o que carregamos e decidir: “isso faz parte de mim” ou “isso não me cabe mais” ou “isso nem é meu, é da minha mãe… preciso devolver”. Há sentimentos, padrões e até histórias familiares que não precisam continuar em nós. Em Cristo, recebemos uma nova identidade: “Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas antigas já passaram” (2 Coríntios 5:17). Para a mulher transcultural, esse discernimento pode significar olhar também para os valores, comportamentos e expectativas que recebeu de sua cultura de origem. Alguns precisam ser honrados e preservados; outros precisam ser ressignificados; outros ainda precisam ser deixados para trás. Da mesma maneira, não precisamos assumir tudo o que a cultura de acolhimento nos apresenta como se tudo fosse verdade para nós. Entre uma cultura e outra, precisamos encontrar, em Cristo, o lugar de onde nossa identidade realmente procede.
3. Abrir espaço para o novo
A alma cheia de “entulhos” nos impede de viver essa nova identidade. Guardamos ressentimentos, culpas, comparações e frustrações que ocupam o espaço que deveria ser preenchido pela paz, alegria e esperança. Deus não apenas quer nos limpar, mas também nos adornar com Suas virtudes. Ele deseja encher nossa vida com aquilo que vem d’Ele: “revesti-vos, pois, como eleitos de Deus, de ternos afetos de misericórdia, de bondade, humildade, mansidão e longanimidade” (Colossenses 3:12). Na caminhada entre culturas, também precisamos limpar as comparações: comparar o país onde estamos com o país de onde viemos, a maneira como as pessoas daqui vivem com a maneira como nossa família vivia, o ministério que temos hoje com aquele que imaginávamos ter. Comparações constantes podem transformar a experiência transcultural em uma permanente sensação de falta. Deus, porém, nos chama a viver plenamente no lugar e no tempo em que Ele nos plantou, sem negar nossa história, mas também sem permitir que ela nos impeça de florescer no presente.

Esse processo de limpeza não é confortável. Assim como dá bastante trabalho limpar a casa, também não é fácil lidar com traumas, rejeições e decepções. Perdoar e liberar pessoas, muitas vezes, nos custa. Revisitar o passado exige vulnerabilidade. Mas é esse processo que nos permite seguir em frente. Jesus disse: “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (João 8:32). A liberdade está do outro lado da verdade enfrentada. E, para quem vive entre culturas, enfrentar a verdade pode significar reconhecer que nem toda dificuldade é culpa da cultura em que estamos, assim como nem toda dificuldade precisa ser atribuída à nossa incapacidade de adaptação. Às vezes, estamos simplesmente cansadas. Às vezes, precisamos elaborar um luto. Às vezes, precisamos perdoar. Às vezes, precisamos pedir ajuda. E, em outras situações, precisamos simplesmente aceitar que viver entre culturas é aprender a habitar espaços de tensão sem perder a paz.
Depois da limpeza, vem o novo. Não decoramos uma casa suja, nem organizamos o lixo. Primeiro limpamos, depois adornamos. Da mesma forma, Deus deseja preparar o nosso interior para receber algo novo. Quando nos permitimos passar por esse processo de cura, tornamo-nos mais leves, mais livres e mais disponíveis para viver aquilo que Ele tem para nós. Talvez essa seja uma das maiores tarefas da mulher que vive entre culturas: não passar a vida inteira tentando voltar para quem era antes de partir, nem tentando se tornar completamente aquilo que a nova cultura espera dela. É permitir que Deus faça uma nova obra a partir de tudo o que ela viveu. É compreender que algumas coisas precisam ser deixadas, outras precisam ser guardadas e outras ainda precisam ser transformadas. A faxina não apaga a história da casa; ela cria espaço para que uma nova história possa continuar sendo construída.
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