
Quadro digital por Joyanne Barber*
A Menina de Muitos Rostos
Quando vi essa imagem, pensei… sou eu todinha.
“Como assim?”, você pode perguntar. “Você é loira de olhos azuis!”
Sim, isso descreve a minha aparência por fora. Mas, por dentro, me sinto como a menina com o pincel na mão: diferente, misturada, única, confusa e, ao mesmo tempo, confiante e bonita.
Ao observar o quadro, as lembranças despertam em mim como se tudo tivesse acontecido ontem. A menina de 12 anos, nascida no Togo, que acabava de se mudar para a Suíça, se faz presente novamente em minha memória. O lenço me faz lembrar das roupas cuidadosamente escolhidas para o meu primeiro dia de aula: uma saia que minha mãe tinha costurado com um tecido bem colorido. Por algum motivo que até hoje não sei explicar, cheguei atrasada nesse dia. Bati na porta, meio sem graça, mas ninguém veio abrir. Então me sentei quietinha em um banco e esperei. Não sei quanto tempo passou até que um aluno, enviado pela professora, abriu a porta e disse: “Pode entrar.”

Todos os olhares se voltaram para mim. Naquele momento, senti que eu não encaixava ali, que estava completamente deslocada entre as outras crianças. Respondendo timidamente às perguntas, tentei explicar, sem muito sucesso, por que eu era um ano mais nova que os demais. Meu sotaque — já que eu tinha estudado em uma escola francesa — denunciava que eu vinha de outro lugar, e logo ganhei o rótulo de “metida”. Eu tinha nacionalidade suíça, mas me sentia estrangeira.
Engraçado como lembro de tudo isso até hoje. Agora sou adulta, casada e mãe de três filhos. Durante muito tempo, carreguei o desejo de voltar para a África. Sempre fui aventureira, e na adolescência fiz várias viagens internacionais. Fluente em duas línguas, muitas vezes me sentia no meio de dois mundos — o francês e o suíço-alemão —, mas também descobri que tinha facilidade para traduzir e conectar pessoas. Percebi cedo esse dom de ser ponte entre línguas e culturas.
Foi em uma viagem a Bamako, no Mali, que conheci meu futuro marido, Jaziel, brasileiro. Ao nos casarmos, uma nova dimensão cultural e linguística foi se somando à minha identidade. Hoje, quando alguém me pergunta, em ambientes multiculturais, como prefiro que pronunciem meu nome, eu sempre respondo: “Do jeito que você quiser! Escolhe a língua.”
Às vezes é difícil dizer qual cultura fala mais alto em mim, porque todas fazem parte de quem eu sou. E que riqueza é ter essa flexibilidade de se adaptar a tantos lugares diferentes: já vivemos no Senegal, na Suíça alemã, na Suíça francesa e, agora, no Brasil.

Consigo facilmente passar a impressão de ser brasileira — falo português sem sotaque e meus gestos acompanham a forma de me expressar. Sou alegre, sociável e sempre pronta para novos desafios. Mas, por trás do sorriso, muitas vezes existe uma insegurança profunda.
Nos momentos mais frágeis, fico me perguntando se estou fazendo tudo certo, se não vou chocar alguém ou ferir alguém sem querer. É uma pressão constante, pesada de carregar. Aquela menina dentro de mim ainda busca ser acolhida, aceita e amada do jeito que é. Mesmo hoje, com toda a minha experiência, ainda enfrento dúvidas sobre o meu valor, tenho dificuldade em lidar com críticas e carrego um medo profundo de rejeição.
Nesses momentos, minhas emoções se parecem com o rosto sério e o olhar intenso e apreensivo da jovem no quadro.
Minha história reflete a de muitos adultos que cresceram como “filhos de terceira cultura”. Ao acompanharem seus pais em experiências internacionais durante a fase de desenvolvimento, acabam tendo sua identidade marcada para sempre.
*Quadro digital de Joyanne Barber, publicado no livro A Work of Heart, Volume 1 – A Collection of Artwork from Multicultural Individuals; organizado por Simona Wiig e Megan C. Norton-Newbanks.

A Work of Heart é um projeto criativo liderado por Simona Wiig e Megan C. Norton-Newbanks que convida pessoas com experiência de Terceira Cultura a compartilharem suas histórias por meio da arte. Este primeiro volume é uma coleção curada de obras feitas por e para Filhos de Contexto Intercultural (FCIs), Filhos de Terceira Cultura (FTCs), nômades globais e qualquer pessoa cuja identidade tenha sido moldada pelo contato entre culturas.
O livro reúne mais de 70 obras acompanhadas de reflexões pessoais de colaboradores com trajetórias diversas, explorando temas como identidade, pertencimento, lar e mudança, e celebrando a riqueza e a complexidade de vidas vividas entre culturas.
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Me emocionei com seu relato. Sua história de vida me tocou de certa forma em áreas que nem mesmo eu sabia que existiam em mim. Não sei explicar direito, mas estou profundamente emocionada e impactada com cada palavra, o quadro, as cores, tudo isso junto, mexeu muito comigo. Obrigada por compartilhar, mas agora preciso me refazer.😭😭😭😭
Oh, Augusta, que o Senhor possa iluminar os olhos do seu coração para se ver, como Ele te ver e receber dele seu amor.
Eu fiquei com um aperto no coração, me perguntando: como estão as emoções da minha filha?
Querida Regina, você têm uma boa conexão com a sua filha?
Talvez você possa mostrar a imagem para ela e perguntar quais são os pensamentos que vêm na mente dela ao ver a imagem. Uma pergunta aberta pode ser uma maneira de iniciar uma conversa, caso ela queira compartilhar. Você também pode mostrar a imagem e falar um pensamento seu, tipo “interessante, né, esse retrato, sempre me perguntei se é possível pertencer a varias culturas ao mesmo tempo…” e ver se ela interage.
O que ajuda muito os FTCs é ter pessoas que validam as emoções deles, ou seja, que ouçam o que eles têm a dizer com atenção, sem julgar ou questionar, e façam eles sentir que esses sentimentos são normais e fazem parte do processo. Quando eu era adolescente, meus pais não tinham as ferramentas e a disponibilidade emocional para fazer isso, muitas vezes, por estar tão envolvidos com as próprias lutas e desafios. Você sendo uma mão emocionalmente presente pode fazer toda diferença na vida da sua filha.
Irene Gasser Rodrigues
Querida Regina, você têm uma boa conexão com a sua filha?
Talvez você possa mostrar a imagem para ela e perguntar quais são os pensamentos que vêm na mente dela ao ver a imagem. Uma pergunta aberta pode ser uma maneira de iniciar uma conversa, caso ela queira compartilhar. Você também pode mostrar a imagem e falar um pensamento seu, tipo “interessante, né, esse retrato, sempre me perguntei se é possível pertencer a varias culturas ao mesmo tempo…” e ver se ela interage.
O que ajuda muito os FTCs é ter pessoas que validam as emoções deles, ou seja, que ouçam o que eles têm a dizer com atenção, sem julgar ou questionar, e façam eles sentir que esses sentimentos são normais e fazem parte do processo. Quando eu era adolescente, meus pais não tinham as ferramentas e a disponibilidade emocional para fazer isso, muitas vezes, por estar tão envolvidos com as próprias lutas e desafios. Você sendo uma mão emocionalmente presente pode fazer toda diferença na vida da sua filha.
Irene Gasser Rodrigues
Lindo! choreii!