3 razões para transmitir o português aos filhos entre culturas

small girl thinking about foreign phrases

Quando a língua materna se torna a língua de herança

Uma família que se muda para um novo país provavelmente terá que lidar com mais de uma língua dentro (e fora) de casa. Tratando-se de uma família com filhos e dependendo da idade deles, os pais logo perceberão que a língua falada na escola ou na comunidade acolhedora passará inevitavelmente a fazer parte da dinâmica linguística familiar. É muito comum os filhos que estão na idade escolar passem a usar mais a língua dominante no seu dia a dia. Nesse contexto, a língua materna, no caso dos brasileiros o português, torna-se então uma língua de herança, ou seja, a língua adquirida junto à família, que ainda no período de sua aquisição dividiu espaço com outra(s) língua(s) “em um ambiente linguístico maioritário” causando o afastamento da língua materna.
Nesse momento os pais podem se perguntar como podem estimular os filhos a manterem e desenvolverem o português, já que eles falam outra língua durante a maior parte do dia na escola e, não raro, também em casa.
A escolha da língua (ou línguas) que será falada, onde, quando e com quem constitui o que se chama política de língua familiar. Em algumas famílias multiculturais isso acontece de forma natural e inconscientemente. No entanto, para que tenha efeitos duradouros, é necessário planejamento, prática e consistência. São vários os motivos que podem levar os pais a investir na manutenção da língua de herança. Essa escolha é permeada por algumas crenças e valores sobre a língua e a cultura a ela relacionada. Por exemplo, se a língua materna é valorizada pela comunidade acolhedora ou se os pais acreditam que ela dará oportunidades profissionais ao filho no futuro, é provável que esforços sejam direcionados para que ela seja usada na família. Como são os pais que decidem qual política de língua adotar, eles passam esses valores para os filhos.

 Em geral, as famílias multiculturais saem do Brasil determinadas a falar o português com seus filhos e a transmitir-lhes a língua materna, no entanto essa prática mostra-se não tão fácil quando a criança passa a trazer a língua dominante* para dentro de casa com mais frequência e o português vai perdendo espaço e o interesse das crianças.
Sem dúvida, tomar a decisão de manter o português dentro do âmbito familiar é um passo importante e fundamental. É imprescindível que os pais valorizem a língua e a cultura e se esforcem para ensiná-la aos seus filhos. No entanto, essa decisão pode ser minada por algumas crenças como a de que a língua dominante precisa ser bem aprendida por ser a mais falada pela comunidade ou de que insistir com a língua de herança pode atrapalhar o desempenho escolar da criança.

A respeito desses dois aspectos gostaria de apresentar, resumidamente, pelo menos 3 razões para transmitir o português ao seu filho e depois apresentar uma razão por que transmitir a ele a língua de herança não atrapalha o seu desempenho escolar.

1 – A língua portuguesa é uma língua global.

É a sexta língua mais falada no mundo por mais de 260 milhões dentre os quais mais de 200 milhões são brasileiros. O português é a língua oficial em nove países distribuídos por quatro continentes e há mais de cinco milhões de falantes naturais na diáspora que a utilizam em diversos países (que não têm a língua portuguesa como língua oficial) ao redor do mundo. O uso da língua portuguesa também é expressivo na internet e nas redes sociais, sendo a quinta língua mais utilizada neste espaço virtual. Portanto, o português é, no mínimo, uma porta de entrada para o patrimônio artístico, cultural, linguístico e acadêmico que esses países compartilham.

2 – O conhecimento da língua portuguesa é um meio essencial para a criança conhecer o Brasil, a cultura, suas raízes étnicas e culturais.

Fatores importantes na formação da identidade étnica-cultural dessas crianças e para o estreitamento dos laços com a família no Brasil.

3 – A língua portuguesa pode abrir oportunidades de trabalho.

Não apenas pelo fato de conhecerem a língua, mas por possuírem competências intercultural e comunicativa desenvolvidas por meio dela. Além disso, independente da língua em questão, pesquisas mostram que as crianças cujos pais escolheram não transmitir a língua de herança demonstram profundo desejo de tê-la mantido e algumas até buscam estudar a língua quando adultas. Eles não entendem por que foram privados de aprender a língua de herança e podem cobrar dos pais depois. Afinal de contas, fatores constituintes da sua identidade como a sua ligação com a cultura e os familiares permanecem.

two kids reading the books

Em relação à influência do bilinguismo sobre o desenvolvimento cognitivo da criança, não há pesquisa consistente que confirme a hipótese de que crianças bilíngues têm seu desenvolvimento cognitivo prejudicado, embora seja comum os professores orientarem os pais a pararem de falar a língua de herança com seus filhos nesse período. O aparente ‘atraso’ na aprendizagem na verdade é o tempo a mais que a criança precisa para “organizar” as línguas no seu sistema cognitivo bilíngue. Pense nesse processo como a construção de um edifício que quanto mais alto exigirá uma fundação mais profunda e, consequentemente, mais tempo para ser estabelecida. Esse tempo difere de criança para criança, como diferentes tipos de solo podem exigir uma fundação mais ou menos profunda.

Outros fatores podem contribuir para a assimilação da língua como, por exemplo, as estruturas das línguas em questão e o nível de contato com a língua, por isso não convém fazer comparações com o desenvolvimento de crianças monolíngues. O neurolinguista canadense Michel Paradis explica que a criança bilíngue experimenta as mesmas etapas de desenvolvimento linguístico que a criança monolíngue, no entanto ela constrói representações lexicais em cada língua que conhece. Esses ‘subsistemas’ estão ligados a um sistema comum que processa essas representações conceituais correspondentes em cada língua. É como se a criança tivesse uma gaveta para cada língua com o seu léxico, estruturas e sons, mas o processamento cognitivo ocorre em uma área comum do cérebro.
Dessa forma, o aprendizado de outra língua até contribui com o desenvolvimento cognitivo da criança.

black kids lying on bed and hiding under duvet while reading book with flashlight at night

Pesquisas também revelam a influência significativa que o irmão mais velho exerce sobre o mais novo na manutenção ou não da língua de herança. Quando a criança está na fase pré-escolar, o nível de contato linguístico que ela receberá
dependerá de alguns fatores: se está na creche ou não, se interage com a comunidade de falantes de português ou de outra língua, ou se interage a maior parte do tempo com a família na língua de herança. Quando a criança começa a fase escolar, logo os pais percebem que o uso do português diminui consideravelmente e ela começa a usar mais a língua dominante, inclusive com os irmãos.

De uma forma geral, as famílias brasileiras se esforçam para garantir que o filho tenha bastante contato com o português, com leituras e atividades com os pais. No entanto, a partir do segundo filho, essa responsabilidade é compartilhada com o irmão mais velho. Essa contribuição é ótima tanto para o desenvolvimento quanto para a manutenção da língua desde que o irmão mais velho esteja ciente de que precisa priorizar o português e que os pais estejam cientes de que ele pode também ter limitações na língua, como o vocabulário por exemplo. O irmão pode usar, naturalmente, palavras na língua dominante ao se relacionar com os irmãos mais novos, já que está habituado a usá-la a maior parte do tempo fora de casa.
Dessa forma, além de falar o português, é preciso estabelecer uma política de língua consistente com estratégias intencionais para que a língua seja mantida.
A família é a base de uma política de língua familiar bem-sucedida e ela tem um papel fundamental na construção do ambiente linguístico necessário para o desenvolvimento e a manutenção da língua de herança. A provisão desse ambiente linguístico exigirá maior esforço da família, especialmente se não estiver inserida em uma comunidade de falantes de português. Muitas são as atividades que podem ser desenvolvidas para transmitir a língua de herança. Uma estratégia que tem se mostrado muito eficiente e também acessível é a leitura na língua de herança. A leitura incentiva o uso da língua em atividades centradas na criança e desperta o interesse pela língua de forma envolvente e emocionalmente relevante para ela. Essa prática, além de ampliar o vocabulário em português, cria vínculo com a cultura, história e arte brasileiras e estreita os laços com a família. A exposição à literatura diversificada expõe a criança ao uso da língua em diferentes contextos para além do âmbito familiar.
A abordagem por meio da literatura desenvolve não só o aspecto linguístico, abre espaço para a criança se expressar e construir sua visão de mundo, fortalece a identidade cultural da criança e forma leitores para toda a vida.

Uma outra forma que os pais podem incentivar o uso da língua de herança é estabelecer momentos específicos para falar português, por exemplo, quando estiver os membros da família juntos, todas as noites, nos fins de semana etc. nos momentos que funcionarem bem para a família. O importante é que seja momentos agradáveis e que criem memórias afetivas significativas para a criança.
Citei aqui apenas duas estratégias a serem adotadas na política de língua escolhida pela família e com o tempo as estratégias devem ser adaptadas conforme a idade das crianças. Se o ambiente linguístico favorável à língua de herança for estabelecido desde cedo, a criança continuará tendo contato com o português e os pais terão deixado uma herança para toda a vida. Essa é uma herança que somente os pais podem deixar, mas não de lado.

*Língua dominante refere-se à língua do país acolhedor, falada pela comunidade, nas escolas, usada nas instituições oficiais ou pela maioria da população.

Daniele Ferreira


Referências
PARADIS, MICHEL. The new functional components of the bilingual cognitive system. In:
KECSKES, Istvan; ALBERTAZZI, Liliana. Cognitive aspects of bilingualism. Dordrecht:

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Daniele Ferreira

Sou Daniele Ferreira, casada e mãe de dois filhos multiculturais. Sou professora especialista em português como língua não materna e em aquisição e ensino da língua de herança. Servi em campo transcultural por 10 anos e atualmente sirvo a igreja local na Serra, ES. Faço parte da equipe do ministério Philhos Educação na capacitação e cuidado da família missionária e do Ministério FMkids.

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