
O que significa ser uma mulher que reflete a imagem de Deus?
Quantas não são as piadas, os memes, e os comentários sobre as diferenças entre homens e mulheres! Damos risada de algumas e nos ofendemos com outras.
Espero não ofender ninguém, mas essa piada sempre me faz abrir um sorriso:
“Um homem entra numa dessas mega-livrarias e pergunta à balconista:
– Você pode me ajudar a encontrar um livro?
– Diga-me o título do livro, por favor.
– “Homens, o sexo forte”
– Senhor, o setor de ficção científica fica no piso de baixo!”
Quem nunca ouviu uma piada menosprezando uma mulher? Geralmente eu sou acusada de não ter ‘um mapa na cabeça’, e pra ser sincera, já consegui me perder dentro de um shopping center!
Há inúmeras piadas que tentam nos distrair do incômodo que sentimos quanto às diferenças entre homens e mulheres. Incômodo trazido pela Queda e a quebra da total confiança entre homem e mulher na Criação.
Mas então, essas diferenças foram criadas por Deus ou apareceram depois da Queda? Como conciliar o ser mulher e o ser homem nesse mundo que prega que somos iguais, que prega autonomia, independência e autossuficiência?
Minha filha é uma menina sensível de 7 anos. Ela, entre outras coisas, quer se casar e ter filhos, já até sabe o nome de cada um, todos baseados nos nomes dos membros de nossa família! Outro dia ela me perguntou: ‘mamãe, eu preciso mesmo de um marido para ter filhos?’
Em suas brincadeiras de ser mamãe, o que importa para ela é cuidar de bebês, de bichinhos de pelúcia e de bonecas. Ainda não encontramos um menino de 7 anos por aqui que queira brincar de ser papai.
Então, será que ela precisa de um homem para realizar seu sonho de cuidar dos outros? De onde vem esse desejo de cuidar?
Sei que algumas de vocês estão pensando, com razão, que esse desejo não é inato a todas as meninas. A maternidade é algo altamente complexo. Eu mesma gostava mais de jogar futebol do que brincar de bonecas. Não pretendo responder a todas as perguntas que possam surgir em suas mentes ao ler essa introdução.
Meu objetivo nesse artigo é defender a tese de que quanto mais compreendemos e nos rendemos à forma como Deus nos criou – a ordem moral que ele estabeleceu na criação – mais preparadas estaremos para render nossos próprios desejos e inclinações àquele que nos criou conforme sua imagem e semelhança. Pois “Deus viu tudo o que havia feito, e tudo havia ficado muito bom” (Gn. 1:31a).
Comecemos em Gênesis
Iremos mergulhar em Gênesis 1 e 2 de uma forma um pouco diferente do que você espera. A maioria do material que uso aqui se baseia em um livro de Christopher Ash chamado ‘Marriage: Sex in the service of God’ ainda sem tradução para o português[1]. Desde já, peço perdão por algumas citações mais densas, mas acompanhem meu raciocínio com paciência por alguns parágrafos. Meu desejo é que você seja encorajada ao final desse artigo, a ser a mulher que Deus te criou para ser.

O relato em Gênesis se inicia com uma terra ‘sem forma e vazia’, a ênfase não está no estado desordenado dela, o que seria a negação da ordem, mas na ausência de uma ordem. “O universo está vazio, à espera de ser preenchido, ou embrionário, à espera de ser desenvolvido. O drama, à medida que se desenrola, enfatiza a ordem, a estrutura, os limites e os relacionamentos apropriados.” (pag. 65-66)
Há na criação tanto estrutura como propósito. Deus cria luz e escuridão, céu e mar, terra seca e vegetação, luminares no céu para o dia e a noite, pássaros e criaturas marinhas, animais terrestres e o ser humano; e por fim, descansa.
A maioria de nós aceita prontamente as leis da natureza, a ordem das estações do ano, as descobertas científicas do mundo físico, as estruturas das plantas, a cadeia alimentar, as diversas espécies de animais etc. Porém, no fundo do nosso entendimento, nós tendemos a rejeitar que o mundo moral – o campo das relações pessoais – também tem estrutura e ordem.
Christopher Ash escreve, “Este seria um mundo em que o ‘ser pessoa’ ainda seria ‘sem forma e vazio’, à espera de ser moldado pelos caprichos subjetivos de cada pessoa ou de cada cultura subsequente. Não, a ordem moral que a lei do Antigo Testamento e a instrução ética do Novo Testamento atestam está enraizada na ordem moral inerente à criação” (p.66).
Deus não deixou a humanidade sem forma e vazia em seu interior para serem moldados pela cultura ou desejos de cada uma de nós.
Ordem moral
Qual seria então essa ordem moral para nós, seres humanos? A cultura ocidental nos estimula a buscar autonomia e autossuficiência; porém, em nossa existência física, nós dependemos de outros e do mundo em que vivemos. Dependemos de alimentos, dependemos de proteção contra o calor e o frio, dependemos de relacionamentos, e assim vai.
“Uma vez que não podemos ser fisicamente autônomos, é implausível supor que possamos ser eticamente autônomos, pois estas múltiplas dependências físicas apontam-nos para a nossa dependência original e total (incluindo ética) do Criador. Ao nos regozijarmos na ordem criada, devemos ‘Saber que o Senhor é Deus. Foi ele quem nos fez, e nós somos dele…’ Salmo 100:3.” (pag.67)
O relato da criação em Gênesis nos diz que Deus nos criou seres éticos, de acordo com seu caráter. ‘Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança’ e ‘Criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus os criou; homem e mulher os criou.’ (Gn 1:26a e 27)
Dentro da ordem da criação, a humanidade é colocada de forma única com uma dupla orientação: em relação ao Criador, a humanidade recebe responsabilidade moral; em relação à Criação, é-lhe confiada uma tarefa. (p.113)

Deus fez homem e mulher iguais em identidade, ambos imagem e semelhança do Deus triúno. Ele também nos deu o papel de dominar sobre a criação, encher e subjugar a terra (Gn 1:26). Um pouco mais adiante no relato, ele dá ao homem a responsabilidade de dar nomes aos seres vivos e, à mulher, ele dá a responsabilidade de auxiliar e corresponder ao homem.
Apesar de estarmos carecas de saber essas coisas, elas demoram a fazer morada em nossa visão de mundo e sentimentos. Como unir os papéis diferentes que Deus deu ao homem e a mulher com a identidade comum de sermos imagem e semelhança de Deus?
Não pretendo abrir aqui a caixa de pandora! Eu precisaria de mais vários artigos para falar sobre esse ponto. Há diversas vertentes e opiniões sobre esse assunto. Quero apenas reforçar meu ponto inicial, conforme nos submetemos à ordem moral de Deus na criação, melhor iremos render a Deus nossos próprios desejos e refletir a imagem Dele na terra.
Será que ser a imagem e semelhança de Deus, em relação à criatividade, pensamentos elaborados e complexos, nos dá o direito de discordar da forma como Ele nos criou, homem e mulher?
Caminhando para uma conclusão
Eu amo dizer a minha filha (e meus filhos também) que ela é imagem e semelhança de Deus. Que isso quer dizer que ela tem o potencial de ser criativa como Deus, é inteligente, é capaz de pensamentos elaborados e complexos, pode fazer descobertas, é bonita como a mais bela flor da criação, tem agilidade corporal impressionante e imaginação sem limites.
Mas muitas vezes me acanho e não continuo no mesmo raciocínio dizendo a ela que, porque Deus a criou dessa forma, ela é dependente Dele também para guiar seus desejos, vontades e pensamentos de acordo com a ordem moral que Ele mesmo estabeleceu na criação.
Quantos vezes eu me pego acalentando em meu coração pensamentos de autonomia e autossuficiência em relação a meu marido. Essa vontade de dominar e não depender de ninguém também aparece em meus relacionamentos com colegas de trabalho e amigos (tanto homens como mulheres). A Queda trouxe à tona nosso desejo de sermos seres independentes. A ordem moral da Criação nos diz que somos dependentes do nosso Criador em todas as esferas de nossa vida.
Como mulheres, vemos o mundo diferentemente dos homens. E Deus nos chama a refletir a glória Dele como mulheres no mundo. Mulheres que sabem que são imagem e semelhança de Deus, com um papel conjunto com os homens de dominar sobre a terra e com a responsabilidade de auxiliar e corresponder ao homem na família e na igreja.
Esse é um bom momento para colocar a famosa frase de Elisabeth Elliot:
“Somos chamadas a ser mulheres. O fato de eu ser mulher não faz de mim um tipo diferente de cristã, porém o fato de eu ser cristã faz de mim um tipo diferente de mulher. Pois abracei o conceito de Deus a meu respeito, e a minha vida inteira é um presente de gratidão ao Senhor por tudo o que sou e tudo o que ele quer que seja.”
Porque recebemos a redenção em Cristo, que restaura a ordem perfeita da Criação, nós podemos abraçar o chamado de Deus para nós sem sentimento de inferioridade ou inveja, mas levando a beleza da noiva, da esposa do Cordeiro, para um mundo que necessita do abraço e do cuidado de uma mulher.
Por isso, abracemos o conceito de Deus a nosso respeito, rendamos nossos próprios desejos e inclinações àquele que nos criou e nos deleitemos em passar a vida buscando compreender o que significa ser mulher neste mundo, conforme Sua imagem e semelhança. Pois “Deus viu tudo o que havia feito, e tudo havia ficado muito bom”.
[1] Porém, temos em português Casados para Deus, do mesmo autor (Vida Nova, ANO). Trata-se de uma abordagem mais breve do mesmo tema (casamento).
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