Desafios “Silenciosos” no Campo Multicultural

vistos

Nesta semana, minha sobrinha completará 12 anos. Compramos um presente online para ser entregue na casa da minha irmã, junto com um cartão. Vamos mandar mensagens, ligar por vídeo… Mas, no fim, não estaremos lá. De novo. Nem lembro a última vez em que pude comemorar um aniversário deles presencialmente, assistir a uma apresentação da escola ou torcer em uma competição de ginástica. E, por mais que com o tempo a gente se acostume, a verdade é que nunca deixa de ser difícil. Nunca deixa de ser uma perda. Isso me fez pensar nos custos “não ditos” da vida fora do obreiro global.

De maneira geral, quando pensamos na vida multicultural, alguns desafios são tão evidentes que se tornam parte do discurso comum: aprender um novo idioma, adaptar-se à cultura local, lidar com dificuldades financeiras, enfrentar possíveis perseguições religiosas e superar a saudade da família. Essas são barreiras reais e exigem preparo, resiliência e apoio. Mas há também os desafios silenciosos, aqueles que raramente aparecem nas pregações sobre chamado ou nos treinamentos, mas que, no dia a dia, pesam tanto quanto (ou até mais) sobre a vida no campo. Alguns exemplos:

Visto e Imigração

vistos e tramites

No papel, parece apenas um detalhe burocrático. Na prática, pode ser uma fonte constante de angústia. A incerteza sobre a permanência no país, os altos custos das renovações, as exigências complexas e a possibilidade real de não conseguir ficar legalmente criam um estado de tensão permanente. O trabalhador multicultural vive sempre com um pé no serviço global e outro no próximo prazo de validade do visto.

Perdas de Celebração e ritos de passagem

Outro desafio silencioso é a perda das celebrações e ritos de passagem no país de origem. Enquanto servimos em outro lugar, é muito comum perdemos casamentos de amigos, aniversários de sobrinhos, natais em família, apresentação em escola, etc. Com o tempo, essa ausência acumula um peso emocional significativo. Não são apenas eventos perdidos, são laços que se distanciam, relações que mudam e um sentimento de desconexão que cresce. Ver fotos e participar por chamadas de vídeo ajuda, mas não substitui o calor da presença.

Criar comunidade

CMM

Criar comunidade em um novo país é outro desafio pouco falado. No campo, amizades não acontecem automaticamente. É preciso reaprender a fazer laços, encontrar pessoas com quem se pode contar e, muitas vezes, lidar com a transitoriedade desses relacionamentos. A realidade é que a vida no campo é marcada por despedidas constantes: amigos que voltam para seus países, equipes que mudam, pessoas queridas que seguem novos caminhos. Construir uma rede de apoio e pertencer a um grupo leva tempo e, enquanto isso não acontece, a solidão pode se tornar um peso. Às vezes não temos amigos de longa data no nosso cotidiano simplesmente por que isso leva tempo – literalmente.

Sobrevivência

E há os desafios práticos, aqueles que parecem pequenos mas, no dia a dia, vão se somando. Encontrar um supermercado confiável, aprender onde comprar carne boa, descobrir onde consertar um carro, entender como pagar uma multa ou abrir uma conta bancária… Tudo isso que antes era automático se torna um aprendizado do zero. No início, cada tarefa simples do cotidiano vira uma pequena batalha, carregada de dúvidas e possíveis erros (Por exemplo, sabia que na Tailândia dirige-se ao lado contrário, como na Inglaterra? Imagina os primeiros meses aprendendo a dirigir por lá…)

Culpa

Outro desafio pouco falado é a culpa que muitos trabalhadores globais sentem ao sair de férias, ou comprar algo especial para si ou para a família. Como vivem de ofertas de igrejas e mantenedores, há uma pressão silenciosa para estarem sempre sofrendo e “produzindo”. O receio de parecer que estão desfrutando de um conforto “imerecido” pode levar a um sentimento constante de vigilância e privação. Essa mentalidade, muitas vezes inconsciente, desgasta emocionalmente e impede o descanso necessário para um ministério sustentável a longo prazo.

Desafios silenciosos no campo

Esses desafios silenciosos moldam a experiência multicultura de um jeito que nem sempre é percebido por quem está de fora. Nem sempre são os grandes perigos ou as dificuldades óbvias que mais desgastam, mas sim as pequenas perdas acumuladas, as burocracias incertas, a solidão inesperada e o esforço constante de reaprender a viver nos detalhes mais simples.

É importante sermos intencionais ao falar sobre isso, e refletir e levar isso em oração. Afinal, ignorar esses desafios não os torna menores – só nos deixa menos preparados para enfrentá-los.

Para concluir, deixo algumas perguntas para você considerar e refletir:

  •     Você já parou para pensar nos desafios silenciosos que podem surgir no campo? O que vem à mente?
  •     Como você tem lidado com as expectativas que os outros colocam sobre a vida multicultural ou seu chamado?
  •     De que forma você pode construir uma rede de apoio que te ajude a enfrentar essas dificuldades?
  •     O que o descanso e autocuidado significam para você dentro da sua vocação para o campo?

Este texto também foi publicado no Blog Antes do Ide

Leia mais textos sobre a vida entre culturas em nosso Blog CMM

EVENTO ONLINE

INSCREVA-SE AQUI

O CMM – Confissões de uma Mulher Multicultural promove a II Semana do Cuidado da Mulher Multicultural, um evento online 100% bilíngue (PT/ES), que acontecerá de 24 a 27 de março de 2026, das 9h30 às 11h30 (horário de Brasília). Serão quatro dias dedicados ao cuidado integral da mulher que vive e serve entre culturas, com palestras, partilhas e painel temático abordando identidade, pertencimento, liderança feminina, vida solteira no contexto global e saúde espiritual, emocional e física. Um espaço seguro de acolhimento, reflexão e fortalecimento para quem enfrenta os desafios da migração e do ministério multicultural.

Com um time experiente de especialistas que atuam no cuidado de trabalhadores globais ao redor do mundo, o evento oferece capacitação prática, troca de experiências e encorajamento em comunidade. Além das transmissões ao vivo, as gravações ficarão disponíveis para as inscritas. Uma oportunidade única para investir no seu crescimento pessoal e ministerial, fortalecer sua resiliência e ampliar seu impacto no Reino de Deus, onde você estiver.

Diogo Militão

Diogo Militão é um Terapeuta Clínico, com ampla experiência em trabalho multicultural desde 2004 e em cuidado de membros desde 2017. Ele já atuou na África Ocidental, Ásia Central e Sudeste Asiático, e atualmente reside na Espanha com sua esposa, Débora. Diogo fez parte da equipe clínica do The Well International, na Tailândia, e é apaixonado por capacitar trabalhadores globais latino-americanos e igrejas emergentes enviadoras com os recursos e a linguagem necessários para um cuidado de membros eficaz. Junto com alguns colegas, Diogo está ajudando a estabelecer o CIMA em Málaga, Espanha — um centro de cuidado de membros dedicado a apoiar obreiros latino-americanos. Ele é graduado em Terapia Clínica, possui uma pós-graduação em Aconselhamento Pastoral e um mestrado em Member Care.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima