Um pouco sobre o preparo da mulher em ministério transcultural

Falar sobre a mulher servindo em campo transcultural é uma das maiores alegrias que Deus tem compartilhado ao meu coração. Para a glória dele, tenho trabalhado na orientação, apoio e cuidado da mulher e da família missionária desde 2012, quando ainda serviamos em Madagascar. Deixamos o Brasil no ano de 2010, vivemos na África do Sul, em Madagascar, em Uganda e atualmente no Quênia. 

Como resultado das minhas experiências pessoais no campo transcultural, o meu histórico como psicóloga, somados à jornada em acolher mulheres mundo afora; senti-me desafiada a refletir e estudar sobre a importância do cuidado específico da mulher multicultural e sua família, especialmente enquanto brasileiras. Ao longo deste processo surgiram questões intrigantes como: Quais os principais motivos para abordar uma perspectiva específica no cuidado da mulher em ministério multicultural? Será que independente de qual seja o ministério da mulher, os desafios e necessidades não seriam os mesmos? Quais as diferenças em relação às necessidades da mulher que serve em seu contexto de origem (o que chamamos de vivência monocultural) em relação às necessidades da mulher que serve fora de sua cultura?

Entendo que uma das primeiras diferenças com relação ao chamado monocultural X transcultural, seria os diferentes caminhos para o processo de compreensão do que de fato envolve o chamado específico e as consequências da decisão pela obediência. Deus nos chama de formas diferentes para lugares e ministérios diferentes. Todo chamado ministerial é importante e tem os seus desafios e preços, bem como os privilégios. 

No caso da jornada ao ministério transcultural, como cristãos brasileiros, embora estejamos crescendo no cuidado e preparo de nossos missionários, ainda somos bastante limitados e, de forma geral, não temos oferecido o preparo específico necessário aos nossos obreiros, principalmente em áreas específicas como por exemplo à mulher em ministério multicultural, o que ainda está em descoberta, e em processo de compreensão, especialmente no contexto brasileiro. Um processo longo e ainda desconhecido pela maioria de nossa liderança cristã evangélica brasileira.

Lembro-me de quando o Senhor me chamou, e como Ele compartilhou comigo sobre o chamado de Abraão: “Sai da sua terra, da tua parentela, e da casa do teu pai, para a terra que eu te mostrarei” – Gen12:1. A maior parte dos missionários transculturais recebe o chamado sem o conhecimento dos próximos passos, e sim, com apenas a disposição em obedecer, de deixar a sua terra, de partir de seu lugar de segurança, de partir de sua zona de conforto para uma terra distante, um povo desconhecido; em obediência ao Deus que nos chama às nações. 

Neste ponto de partida não sabemos o que esperar, e na verdade, hoje entendo que 

são anos de jornada em direção a esta compreensão, em especial quanto as renúncias que envolvem esta tomada de decisão.  Junto com a paz e a alegria que nos sustentam na decisão, existe um processo de vislumbrar as perdas que vivenciamos e das que estarão por vir. Como por exemplo: o entregar dos próprios sonhos como profissional, talvez a renúncia de um casamento, o sacrifício do sonho de criar os filhos próximos a uma rede de apoio, a insegurança de viver na dependência de Deus por meio do levantamento de ofertas, etc. 

Como mulher, compreendo que todo este processo acontece de maneira bem específica, e que para que ocorra de maneira saudável, é necessário um preparo intencional e específico, não somente para partir, como também na manutenção e no contínuo cuidado e apoio à mulher multicultural em cada fase do ciclo da vida missional (decisão de chamado, levantamento de sustento, preparo para partir, envio, adaptação, aprendizado da língua e cultura, desenvolvimento do ministério, visitas ao país de origem, retorno e aposentadoria). 

Na minha experiência, passei alguns anos processando as fases que já tivemos a oportunidade de vivenciar pessoalmente. Em várias situações fomos pioneiros como brasileiros em nossa organização, e em outras pude buscar ajuda por meio de amigas missionárias mais experientes. E ainda assim, em vários aspectos, até hoje não encontro todas as respostas que gostaria. 

A paz de Deus que excede todo entendimento, que habitou o meu coração desde o momento da decisão, tem sido suficiente para a escolha contínua por deixar minha própria cultura e lançar-me ao desconhecido. Ainda assim, quero aqui enfatizar que esta paz não exclui a necessidade do cuidado próprio, do cuidado mútuo e da responsabilidade de apoio da igreja e agências no cuidado de seus missionários; agindo como corpo de Cristo, todos ajustados, servindo para a expansão do Reino de Deus.

Entender o tempo correto para partir é um grande desafio na saída para o campo transcultural. Em 2002 Rodrigo e eu nos casamos. Logo depois ele se tornou pastor Batista no Brasil, e eu, a esposa do pastor, enquanto também trabalhava como Psicóloga. Ao compartilhar o nosso desejo de servir na África, submetemo-nos à nossa liderança em plantar e pastorear uma igreja até o período de nossa saída do Brasil para a África, como parte de nosso preparo. 

No começo dos anos pastorais, havia momentos em que surgia uma inquietação quanto ao desejo de logo partir para a missão transcultural. Queria fazer planos, resolver o futuro, descobrir os próximos passos, saber qual seria o momento de partir. Mas ele ainda não se sentia em paz para isso. A cada ano avaliávamos e conversávamos sobre o nosso chamado missionário, até que um dia, finalmente resolvi entregar à Deus somente, e confiar que partiríamos no tempo apropriado. A espera é um lugar desconfortável, mas muitas vezes necessário em nosso preparo. 

No período em que aguardamos o tempo de partida, é importante um preparo e suporte  emocional sólido. É também um momento para compreender e para partilhar expectativas da realidade vindoura. Deve ser um tempo para explorar e conhecer um pouco do lugar e das pessoas que nos esperam, das questões burocráticas e logísticas necessárias, para fazer descobertas sobre a realidade do campo, para o estudo da história do povo que desejamos alcançar, para avaliar possibilidades de ministério.

Nesta fase de preparo, entendo que a mulher solteira e a mulher casada enfrentam desafios diferentes e bem específicos, que são legítimos e necessitam ser processados. De um lado temos aquelas que o Senhor chama para a carreira solo, e que enfrentam os medos normais de um futuro desconhecido longe de sua rede de apoio, na total dependência de um chamado complexo e sobrenatural. Aceitando os riscos da missão bem como o de aumentar as chances de permanecer solteira por conta da natureza da missão. Não só a renúncia da vida próxima aos familiares, como também o risco da renúncia da construção de sua própria família. Tenho visto a graça de Deus sobre as minhas irmãs solteiras em missão transcultural, o quanto o Senhor trabalha, usa-as e cuida de cada uma delas. Contudo tenho também visto alguns casos de como a falta de preparo e cuidado para com elas que servem em realidade transcultural, pode trazer feridas profundas e impactar nos resultados e frutos do ministério, culminando por vezes no retorno precoce.

Também podemos falar sobre alguns dos desafios das casadas. Como o de trabalhar em unidade com o marido, por exemplo, na decisão de partir, na maneira como exercer o ministério, na educação dos filhos, no chamado e tantas decisões da caminhada missional. Podem ocorrer inúmeros problemas no campo, enraizados à falta de preparo e unidade em relação ao chamado como casal. A falta de uma compreensão sobre aspectos específicos da missão enquanto casal, pode ser grave para o casamento, impedindo o sucesso do ministério. 

No casamento entre missionários, é preciso buscar entender a missão transcultural  como um chamado em família e como isso se dará na prática do dia a dia. Obviamente que cada um com seus dons e chamados específicos. Mas é importante que as similaridades e renúncias sejam avaliadas antes de partir. Pois muitas vezes, a mulher missionária pode sentir-se na obrigação de se anular, ou de ser totalmente dependente da missão do marido, e isto pode parecer até romântico no início, mas nada saudável, trazendo sérias consequências futuras.  

Falando em relação a família transcultural, percebo que duas coisas são consideradas como uma das principais fontes de preocupação e estresse: as transições, e a educação dos filhos. É preciso conhecer antecipadamente e definir as possibilidades como a escola (local ou internacional) e ou educação domiciliar. Além das questões de linguística de alfabetização, e a influência da cultura local na educação dos filhos. Estes são conhecimentos importantes que vão auxiliar os pais no apoio aos filhos nestes processos difíceis e nas suas diferentes fases. É relevante que a mãe entre culturas, considere as questões de desenvolvimento e identidade em relação à educação transcultural. É preciso tomar conhecimento e se preparar para a realidade de que levar um filho para se desenvolver fora de sua cultura por anos significativos de sua infância e/ou adolescência, também exigirá dos pais um conhecimento específico quanto a formação deste filho que terá características e desafios bem específicos consequentes da vida transcultural, e por isso são chamados de filhos de terceira cultura.  

Nos primeiros anos de casada, ainda no Brasil, por 5 anos, eu não conseguia engravidar. Foi um tempo de lutas e espera. Em 2007, Deus operou um grande milagre e descobri que estava grávida, no mesmo mês em que meu marido veio compartilhar comigo que o tempo de deixar o Brasil estava chegando. Fiquei em choque, e agora? Como partir ainda mais com um bebê? Mas a convicção de nosso chamado era clara, e tínhamos um compromisso diante de Deus. E ainda em gestação de nosso bebê, começamos a planejar a nossa saída.

Por conta dos problemas de saúde e a dificuldade para ter filhos, já não utilizava mais contraceptivos, e no ano marcado para nossa partida descobri que estava grávida mais uma vez. E enquanto trabalhávamos no levantamento de sustento, aguardávamos o segundo bebê. No ano de 2010, chegou o tempo de deixarmos o Brasil. O nosso primeiro filho João Pedro estava com 2 anos e o Asafe com 5 meses. Assim, como família, seguimos então para o continente africano. Em meio aos sentimentos que se misturam: a alegria em obedecer; o medo do desconhecido; o peso da responsabilidade como mãe; a tristeza do deixar as pessoas, o trabalho, as coisas pessoais, animais, e a própria cultura, onde já sabíamos como navegar, como lidar. Enquanto o avião subia, o meu coração batia mais forte, e ali de fato entendi que não poderia olhar para trás, mas sim fixar os olhos naquele que me chamou, em Cristo, e assim prosseguir.

Cheguei no campo e a falta de preparo, me fez cometer erros sérios, como por exemplo, o de no primeiro ano fora do Brasil focar prioritariamente no “ministério” e para isso deixar meus filhos na escolinha. Minha cabeça não pensava transculturalmente e não pude avaliar o fato de que no primeiro ano, a mãe precisa estar presente para auxiliar os filhos na transição e que este deve ser o nosso primeiro ministério. Em nome da missão deixei meus filhos em um lugar onde falavam várias línguas que eles não entendiam e não eram compreendidos; João Pedro chorou por mais de 3 meses todos os dias pela manhã antes de ser deixado na escola e antes de dormir porque não podia imaginar acordar e ser “abandonado” naquele lugar tão diferente, sem sua língua materna e sem nenhuma presença comum, a não ser seu irmão Asafe ainda bebê que adoeceu no terceiro mês. Um dia uma médica muçulmana me perguntou: O Deus que você serve pede para você deixar os seus filhos de lado em nome da missão que Ele te deu? Ali mesmo no consultório fiquei envergonhada e me desabei a chorar. Ela disse: seus filhos precisam de você, da sua presença nesta fase, tenho certeza de que Deus entenderá. 

Meu Deus, obrigada porque ainda em tempo pude enxergar. Deus usou aquela mulher para abrir meus olhos e mudar a rota. Pois quando aceitamos o chamado, romantizamos como que apaixonados, agimos como se o “trabalho” em si fosse o mais importante, e que porque estamos na missão, Deus cuidará de nossos filhos, o que é de fato verdade, contudo Ele mesmo nos delega responsabilidades como pais e precisamos assumir o nosso papel diante Dele. O cuidado dos filhos é também nosso ministério e deve ser exercido com amor e excelência. Nossos filhos também são nossos discípulos. 

Exaustivamente falando da importância do preparo como parte do cuidado missionário, vejo ainda que não dá pra ficarmos nos preparando pro resto da vida, sabendo que  o nosso maior aprendizado vai acontecer na prática. Reconhecendo que jamais estaremos completamente preparadas, e que a experiência transcultural de cada uma de nós é, e será única, singular, ao mesmo tempo que comum. Perceber esta realidade nos ajuda no apoio e no cuidado mútuo.

Lançar-nos a viver em uma nova cultura, é recomeçar, é lançar -se à uma vida de riscos e incertezas em vários aspectos, ainda mais nos primeiros anos até que haja maior aprendizagem da língua, da cultura e do compreender de como agir e viver naquele local. 

E o fundamento mais sólido que podemos ter rumo à obediência ao chamado transcultural,  é estarmos seguras no Senhor que nos chama e nos capacita. Ele é fiel e jamais nos abandona. O seu amor perfeito lança fora o medo, e por isso Nele podemos prosseguir e frutificar, mesmo em meio às nossas limitações e desafios.

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