Maternidade no campo missionário transcultural

Tive o privilégio de servir em campo transcultural enquanto solteira e depois de um tempo em meu país, retornei casada e com duas filhas pequenas. Em ambas as situações houve desafios, lutas e aprendizados. Deus, por sua graça, permitiu-me servi-lo enquanto solteira, também me deu a rica oportunidade de vivenciar a maternidade no campo missionário transcultural.
A maternidade por si só já envolve diversos desafios que se iniciam com as mudanças corporais e os desconfortos da gravidez, mas não é só isso, os desafios parecem aprofundar-se com passar dos tempos, quem nunca ouviu a expressão: “filho criado trabalho dobrado”? A maternidade é uma missão divina e aguça em nós o senso de proteção e cuidado, nos torna mais corajosas e sensíveis diante das necessidades de nossos filhos.

Numa condição normal, estar no campo missionário transcultural já nos faz sentir vulneráveis e fragilizadas diante dos desafios de uma língua e cultura diferentes, da dor da saudade dos familiares e até mesmo a insegurança do sustento financeiro, dificuldades com papeladas e documentações… Quando associamos tudo isso ao instinto materno ativado em nós, essas questões assumem uma proporção mais avantajadas, pois, além de querermos nos proteger, queremos também proteger nossas crias de todas essas dificuldades. Essa é uma condição bastante comum às mães em campo missionário: o desejo de querer proteger os filhos dos desafios da vida transcultural. É seguro dizer que a maternidade envolve prazeres indescritíveis, mas também cansaço e preocupações e quando então assumimos, para além dos desafios próprios da maternidade, a missão de proteger nossos filhos do choque cultural, da saudade e das dificuldades de uma nova língua, o resultado disso é uma carga sobre-humana em nossas emoções.

Como mãe nos esforçamos para que a emoções de nossos filhos sejam protegidas dos dissabores de uma transição. Cuidamos para que seus “objetos sagrados” não sejam esquecidos, para que nossas malas consigam transportar o máximo necessário com o mínimo de espaço e ainda temos que nos manter firmes e sorridentes como se tudo isso fosse apenas uma grande aventura de férias! Como mãe, assumimos também a árdua missão de muitas vezes ter que transformar um ambiente novo e hostil um lar aconchegante para nossa família. Isso tudo pode ser realmente é exaustivo! E a postura que querer manter tudo sob controle poder ser mesmo desgastante, por isso é importante percebermos que não conseguiremos manter o controle de tudo e iremos nos cansar e nos frustrar. Devemos nos permitir sentir saudades, chorar e ficar também cansada. Querer estar com tudo sempre sob nosso controle é desgastante e não nos ajuda em nada.
É importante notar que muito do que é imprimido na emoção de nossos filhos vêm do que eles ouvem ou absorvem do nosso comportamento de ansiedade, preocupações e até murmurações. A verdade é que corremos o risco de nos enchemos de remorsos pelo que não pudemos oferecer aos nossos filhos e isso é transformado em ressentimento que poderá segui-los por toda a vida. Devemos cuidar de falar sempre a verdade sobre o que de fato está se passando com a família, sem dramatizar, mas com equilíbrio, graça e sabedoria, procurar envolver nossos filhos, na medida do possível, nas decisões e desafios que estamos a viver, tais como dificuldades com moradia, escassez financeira ou até mesmo algum problema de saúde.

O sentimento de culpa poderá ser algo presente em nossas emoções por termos tirado nossos filhos da segurança de nossa pátria e família e os envolvidos numa aventura, às vezes pouco emocionante. A verdade é que não poderemos “salvar” nossos filhos de todas as agruras de uma vida transcultural, não poderemos isentá-los disso pois são parte integrante e nessa jornada eles irão rir e chorar, irão divertir-se e entediar-se, irão ter dias de abundância e escassez e isso tudo serão meios de graça para que possam conhecer e amar ao Senhor, o Deus de toda provisão no qual deverá estar todo nosso contentamento e alegria por fazermos parte da História que Ele mesmo escreveu, pois de fato, nossos filhos não caíram de paraquedas em nossa missão transcultural, O Senhor os pôs ali. O mesmo Deus que está presente hoje na vida de nossos filhos estará no futuro deles. Um dia eles irão crescer, amadurecer e alçar seus próprios voos, mas agora, eles fazem parte da missão conosco, como filhos, envolvidos num grande plano transcultural.

O melhor que podemos fazer por nossa família, como mãe em um contexto transcultural é nos manter saudáveis e em atividade. Há um ditado que diz que quando a mãe esta triste a casa fica triste. Isso é bem verdade na prática. Nossa saúde emocional é importante para o bem-estar de todos da nossa família, assim, convém que descansemos fisicamente e emocionalmente; que procuremos fazer alguma atividade que nos dê prazer e descanso e nos esforcemos para nos mantermos produtivas e não sobrecarregadas. Precisamos desviar nosso olhar de nossos filhos, de suas necessidades e vontades e redirecionar para Deus; devemos também ensiná-los a fazer o mesmo. Eles devem ser estimulados na fé e confiança em Deus, pois, antes deles serem nossos, eles são do Senhor e é Ele quem cuida e os mantém. Todo nosso esforço em protegê-los excessivamente poderá ser desgastante e improdutivo. O melhor que fazemos e mantê-los nas mãos de Deus em oração, pois eles terão suas próprias experiencias e sofrerão suas próprias dores e batalhas, mas, como flechas nas mãos do valente, chegaram ao alvo, eles são nossas flechas na aljava (Sl. 128). Eles são nossos filhos, mas e antes de serem nossos filhos eles são do Senhor, pertencem a Ele e foram por Ele entregues a nós como um preciosos tesouros a mordomos fies; foram entregues a nós para serem direcionados para o verdadeiro alvo, Cristo. Eles não são nossos troféus, são flechas para serem lançadas a diante, para a glória de Deus!

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